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A lança de Ébano



Autor: Colmar Pereira Duarte
Intérprete: Cássia Machado
Amadrinhador: Valdir Verona

Conto como me contaram,
vendo assim como comprei.
Aqui vai tudo o que sei
-misto de lenda e de história-
guardado pela memória,
vivido por gente antiga,
sabido por pouca gente.

Dizem que, muito em segredo,
às vésperas de um combate,
Bento Manoel foi ao cerro
em busca da teniaguá.
Não sei se a troco de nada,
a princesa enfeitiçada
deu-lhe a lança e o poder.
Com essa arma na mão
fazia a terra tremer,
punha em fuga o inimigo.

Mais batalhasm
mais vitórias!
E a sorte, sempre consigo.

Negra, como a salamanca,
é a sua haste de ébano.
Madeira que não se encontra,
não se corta nem se arranca
nem por cem léguas de mato.

É misteriosa, de fato,
a procedência da lança!
Sua ponteira é de prata
diz que, durante as batalhas
-magia ou coisa que o valha-
brilhava como um luzeiro.
E Bento Manoel Ribeiro,
bafejado pela sorte
-corpo fechado pra morte-
nunca mais foi derrotado.

Ma houve um dia, marcado
pela lenda e pela história.

Era o ano vinte e cinco
de um século de três gurerras
-campanhas da Cisplatina,
Farroupilha e Paraguai.
Manhã de um doze de outubro,
coxilhas de Sarandi,
terra de campos neutrais.
Com Lavalleja e Rivera
à frente dos orientais,
dois exércitos inteiros
cercaram Manoel Ribeiro,
com dobro de arma e gente.

Resistia bravamente
comandando seus guerreiros,
quando o felte que montava
tombou ferido de morte.
Ficara à mercê e à sorte
das lanças dos castelhanos.

Mas, num lance inusitado,
Osório, que era soldado
nessa tropa de fronteira,
investe sobre o inimigo.
E na garupa do pingo
tira dali o comandante!

Depois da pas Cisplatina,
já na guerra dos Farrapos,
Bento largou as guerrilhas
-imperiais ou farroupilhas,
pois peleara dos dois lados
tendo seus feitos gravados
nos anais da nossa história.

E, ao retirar-se das lutas,
em gratidão ao amigo
que lhe garantira a vida
naquele doze de outubro
guardado em suas memórias,
deu a Manoel Luiz Osório
a lança jamais vencida!

Quis o destino que, adiante,
fosse Osório o comandante
na gurerra contra Solano.

Marchando assim soberano
à frente dos brasileiros
-em Morón, Monte Caseros,
Itororó, Tuituti-
coi um El Cid daqui
comandando seus soldados.

Em sua mão, como um signo
a marcar cada vitória,
levava a lança de Ébano
e o segredo de sua história!

Foi assim que ouvi contar
e foi assim que entendi.
Por isso eu explico aqui,
este épico relato.
Pois o destino da gente
não é traçado somente
por datas, planos e fatos.

Para que a si mesmo entenda
e aos outros possa entender,
é preciso conhecer
o mito, a história e a lenda.

Das ruínas do saladeiro.




Autor: Estanislau Robalo
Intérprete: Miriam de Ávila
Amadrinhador: Jqueline Muniz Vargas

À noite vem os lamentos
dentre meio aos escombros
das almas fazendo assombros
nas ruínas do saldeiro.
Talvez, de algum peão campeiro
remoendo seus tormentos.

Perdidad, buscando a luz
na saudade e nostalgia
lamuriando em noite fria
com as marcas do passado
carregando o seu pecado
conforme o peso da cruz.

É algum capataz de tropa
que sai pro aí vagando,
suas lamúrias tropeando
como o gado, aos ingleses
que mataram nossas reses
pra vender charque à Oropa.

E se tornam enrijecidas
numa convivência bruta,
na tradição e na luta
como faram esses gaudérios
outrora, mulatos sérios
hojem vagam sem guaridas.

Essas almas desgarradas
que vagueiam sem preguiça,
conhecem bem a injusitça
e a vivência sem direitos
a fúria dos preconceitos
e o vazi das invernadas.

Conhecem mais que ninguém
a história dessa querência,
a negação da clemência
até mesmo ao boi de canga,
saindo da última changa
pra charque virar também.

A relação de poder
que fez do pobre mais pobre,
o rico chamar-se nobre
modificando o conceito
e aumentando o desrespeito
sempre na busca do ter.

Quem sabe se ao saladeiro
que a essas almas congrega
alma de boi tambem medra
no saladeiro em ruínas,
possa ainda abrir as retinas
de muito peão campeiro.

Pois há uma eterna charqueada
que vai somando na tarca,
é o homem que bota a marca
pra marcar o semelhante
e leva a tropa por diante
como se leva a boiada.

Mas um dia, Deus permita
que almas de bicho e gente
num missal irreverente,
decretem o fim dos abusos
e a retirada de intrusos
dessa querência bendita.

Que a marca rubra deixada
no sangrador da coxilha,
demarque uma nova tropilha
pra um mundo mais consciente
e as almas que sigam em frente
felizes nessa jornada!
 




João Maria - Monge de muitos lugares


 

Autor: Moisés Silveira de Menezes
Intérprete: Romeu Weber
Amadrinhador: Valdir Verona

João Maria, filho meu
é tempo de boa nova
toma o cajado e a estrada
que a hora já é chegada,
aquele que a mim vier
nele estarei para sempre.
Minha palavra, João,
mensagem de amor e fé
deve chegar aos irmãos.
A todos deves unir
sob a figura do filho
e a proteção de Deus Pai.

João Maria, o primeiro,
pés no chão olhos no longe
coração inteiro aos céus
peregrino pôs-se a campo
semeando paz e verdade,
o verbo ganhando forma
unindo homens e crenças.
Palavra, espada invisível
fere, consola, conforta,
anunciou aos quatro ventos
que finha em nome do Pai,
Criador, Principío, Fim.

A palavra do Senhor
pela voz de João Maria
cortou ventos, cruzou rios
palmilhou longos caminhos
entranhou-se mato a dentro
alcançando os esquecidos
que sem voz, razão ou sonho
margeavam vida sem rumo.
Oração, luz estrelar
peregrino verbo santo
agruparia os humildes
na crença de um mundo novo.

Quem seria João Maria?
Feições calmas, barba branca
que viera, dizem da Itália,
pra recorrer os sertões
de Sorocaba ao Rio Grande
pelo caminho das tropas.
João Maria d'Agostinho
eremita e solitário
palavra, gesto, bondade,
João Maria do Campestre
culto e voz de Santo Antão
na Santa Boca do Monte.

Nas ermas grotas dos cerros
pinheirinho, linha bastos,
ausentes, luz e bonança
a palavra se expandira
alento para o espírito,
curando doenças e dores.
"Qual um facho que alumia"
João Maria dos barbudos,
pastor dos puros de alma
se faz presa para a fúria
mortes, prisões, barbarismo
dos ditames do poder.

João Maria fora um monge
João Maria foram muitos
Irani, no Contestado
palavras, foices, facões
ante fuzis e metralhas.
O verbo se faz couraça
João Maria de Jesus
o monge de Bela Vista
no Fundão de Soledade
mistiscismo, incompreensão,
massacre, gente inocente
povo manso do Senhor.

"Muito d'antes tinha um monge"
João Maria d'Agostinho
monge de muitos lugares
pastor de muitos rebanhos.
João Maria de Jesus,
subversivo talvez
luz e voz dos excluídos.
Milagreiro - disse o povo.
Profeta - disse o poeta.
João Maria foram muitos
estradeiros, pregadores
sóis em verbo pela paz.




 

Pajada para a língua portuguesa.



Autor: Vaine Darde
Intérprete: Pedro Jr. da Fontoura
Amadrinhador: Violão: Esequiel Oliveira
Acordeon: Anderson Magrinelli

Eu transito pelo verso
com metáforas de campo,
lampejos de pirilampos
nos vocábulos impressos.
Pois toda a vez que me expresso
com a prosa dos galpões
tenho o sotaque dos peões,
que, por mais que o tempo mude,
-apesar do timbre rude-
jamais renega Camões...

Meu verso tem a aspereza
das forjas de ferraria...
A pena nolda a poesia
de vocação camponesa,
mas a língua portuguesa
é a chama que me inspira
a seguir timbrando a lira
com acordes de guitarra,
borracho, que nem cigarra
que bebe sol e delira...

Eu me criei na fronteira
mas nem por isso declino
do meu idioma sulino
nem da Pátria brasileira.
Cantar à moda estrangeira
é renegar todo o brilho
com o qual Camões, no exílio,
sofrendo auxências eternas,
chorou na lingua materna
e foi exemplo de filho...

Amo o timbre das auroras,
do vento nas casuarinas,
que a terra mãe nos ensina
nos sons que a gente decora...
Que tem sílabas de esporas
e cadência de legüero
e que, apesar de campeiro,
não aliena o fonema
mas eterniza o poema
do cantador brasileiro.

Nosso idioma lusitano
que saiu de Portugal
na odisséia de Cabral
pelos confins do oceano,
chegou ao solo pampeano
pra dar nome às sesmarias
quando o Rio Grande nascia...
E na mais bárbara etapa
eternizou-se no mapa
batizando a geografia.

Não contesto as influências
nem a mescla de culturas,
pois a pampa é uma mistura
de matizes e vivências,
porém me dói, na consciência,
o que se faz e se fez
ao despertar a altivez
desse idioma que Caminha
registrou, em poucas linhas
o Brasil em Português.

Por isto não abro mão
de cantar as nossas plagas
com sons de esporas e adagas
e cochichos de galpão
como se fosse guardião
ou mecenas do alfabeto
com que cantou Simões Neto
as lendas do nosso povo,
sem modismos nem retovo
que causassem desafetos...

Por mais sonoro ou divino
o idioma de Cerventes,
não me parece vibrante
no mesmo tom cristalino
que timbra os versos do Hino
de um Osório Duque Estrada,
um soneto, uma pajada
com a sublime beleza
da linguagem portuguesa
tantas vezes desprezada...

Não entendo esse elitismo
de adotar a íngua estrangeira,
é qual trocar de bandeira...
Pois língua é também civismo,
é sonoro patriotismo
que, pela vida, se agrava...
nos versos que a gente grava
sobre as folhas do caderno
querendo ficar eterno
com a Pátria nas palavras.

Poema de espera

Autor: Érico Rodrigo Padilha
Intérprete: Paula Danielle Stringhi
Amadrinhador: Rodrigo Padilha

Sempre...
Quando a noite grande,
se debruça na coxilha,
engolindo o dia que passei distante,
me encontro sempre solita
buscando alem do horizonte,
tua imagem refletida na meia luz da minguante.

Preciso encontrar um jeito
de acostumar às distancias
que me separam de ti.
Quem sabe, ocupar o tempo
n'algum rascunho de verso,
pra disfarçar a saudade
que trago dentro de mim.

Então...
Diante da estrada comprida
que se alonga entre os meus olhos,
meus pensamentos transcendem
nas asas da fantasia
e as palavras vão surgindo
ganhando forma de poesia.

Transformo em rimas o amor
que trago dentro do peito.
Encontro força em meu ventre
pra cada verso que faço,
porque carrego um pedaço
da tua alma presa à minha,
e pra explicar o que eu sinto
eternizei estas linhas...

Busquei por caminhos vagos
a pura essência da vida
e derrepente esbarrei
numa memória esquecida.

Tudo passou tao de pressa
que eu sequer me dei por conta
-a vida a dois se transforma
quando outra vida desponta.

Sao devaneios que tenho
a cada noite que passa
pra quem segue um caminho
sempre o destino se traça.

A razão de toda essa intriga
que trago dentro da mente
talvez seja um sentimento
que apareceu derrepente.

Sempre fiz planos pra vida
sobre um futuro incerto
busquei tão longe a ternura
quando a tinha tão perto.

Busco respostas em mim
pra cada angústia que trago
e quando alguma eu encontro
é porque estou a teu lado.

Assim...
A noite segue seu rumo,
e eu por dentro me consumo
comparando em cada estrela
o brilho do teu olhar.
Quando se ama à distancia
pra sufocar estas ânsias,
o que resta é a esperança
de ver o tempo passar...

Conto nos dedos os dias
pra te encontrar em meus braços,
no calor do mate amargo
busco sentir tua presença,
e nos poemas que escrevo
tento suprir tua auxência!

Sim...
Em cada lembrança tua,
componho versos pra lua,
pras estrelas, pras estradas,
pras noites enluaradas
que no cruzar das madrugadas
iluminam o caminho
e a distancia que nos separa.

Por isso que encontro forças
pra explicar meus sentimentos,
porque carrego um rebento
que é fruto desse encanto,
da magia, do acalanto,
que seinto com a tua presença,
e a razão dessa existencia,
é saber que te amo tanto!

Pra quem mateia solito

Autor: Marcio Gomes/Getulio Silva
Intérprete: Fabriano Rodrigues da Silva
Amadrinhador: Vasco Machado

Enquanto mateio solito
vou agrupando saudades,
em busca de realidades,
paleteando as duras lidas
sofrendo mágoas perdidas
onde o silêncio e os ventos,
amansam meus sentimentos,
e compreendo melhor a vida!

Vou tropeando o pensamento
cavalgando na vontade,
sorvendo só a verdade,
no açude da esperança
ao tombar a noite mansa,
campereio o meu destino,
o sonho me fez menino,
cabresteado de lembranças.

Fui me embretando no tempo
que o amargor me levava,
e a infusão que eu tomava,
com telúrica emoção
junto ao fogo de chão
dei asas ao pensamento,
palanqueei o sofrimento,
com meu mate-chimarrão.

Um desejo escondido
na quentura da cambona,
a saudade redomona,
no peito de quem mateia
meu coração escarceia
quando bato o tição
e a seiva da tradição,
dentro de mim corcoveia.

Meu companheiro cavalo
introspectivo por excelência,
traz o amor da querência
que sorvo em cada trago,
teu calor é o afago
que vai cruzando divisas,
chimarrão, tu simbolizas
as coisas vivas do pago.

Cabresto de ternura xucra
do amargo tão gostoso,
que por vezer silencioso
num mirar de relancina,
deixa preso na retina,
como a desvendar segredos,
gesto oculto, de tocar os dedos,
que prende o olhar da china.

Meu amigo mate-amargo
com sua mística vivência,
que traz na sua procedência,
recordações do passado.
Em silêncio teno gritado,
o que pra mim representas,
um rio verde de água benta
das tradições do Estado!

Nos últimos roncos
deste xucro mate-amargo,
horizonte a dentro me largo,
e vou bebendo lonjura
num xucrismo de ternura,
deste atavismo tão grande,
que no teu sabor se expande,
no saber e na cultura.

Depois de matear bastante
te guardo cheio de ciúme,
és tradição e costume,
do nosso pago bendito,
que se alastra ao despacito,
sempre em cada cevadura,
de algum recuerdo amargura
de quem mateia solito!!!

Pra quem tem Pátria na alma

Auitor: Sebastião Teixeira Correa
Intérprete: Tônia Mariza Frizzo
Amadrinhador: Tomas Savariz

Escorropicho esse mate até o último gole,
porém, a sede do corpo não é maior que a secura
que trago dentro da alma.

Esse viver emprestado entre muros e asfalto
torna minha vida um deserto
onde a torreira é tão forte
que as sementes dos meus sonhos
não conseguem germinar.

Um dia bandeei pra cá, nos louros da mocidade,
com aforça de agarrar potros
e a coragem de que pega touro ventena na cruzada
e mete os dedos nas ventas, pra derrubar na mangueira.

Com destreza pra um pealo
e a certeza de quem larga um doze braças comprido,
estirando toda a corda, pra cinchar de a cavalo.

Os olhos de águia e o peito, uma muralha pros golpes
das intempéries teimosas que insistem em nos derrubar.

O que buscava?
Até hoje ainda tento descobrir...

Talvez descanso das lides, sofrido por tironaços,
talvez um pouco de "espaço",
pois dizem que é de direito buscar posição sociail;
Ou, quem sabe, a garantia de alguma changa decente
pra amparar aminha gente neste mundo desigual.

Numa malda de garupa juntei os poucos pertences
e o campo virou saudade...
o olhar de longe pros pastos,
a poeira encobrindo os rastros,
assim rumei pra cidade.

Malvada ilusão aquela que às vezes nos faz pensar
que a tal de felicidade é flor que habita castelos,
distantes pros nossos sonhos;
Que a vida só tem sentido pra quem se torna povoeiro
e que o viver de campeiro não faz a gente feliz...

Ninguém me disse o contrário,
nem um gesto, nem palavra, pra que eu tomasse tenência,
então, deixei a querência, o rancho onde fui nascido,
a coxilha, onde crescido, tironeava só por graça;
Deixei o pingo de estouro, com fibra de pechar touro,
deixei amigos, parentes (gente que gosta da gente),
acho que não me dei conta que estava deixando eu mesmo:
-Minha raiz campechana;
-Minha cultura encravada em cada palmo de campo
-Minha memória de hoje campeia causos, paisagens,
que se extraviaram de mim.

Não vi o tempo passar.

Há muito que ando correndo
atrás de uma multidão que não sabe pra onde vai:
-Não sabem o que procuram-
Mas, mesmo assim continuam, cada vez correndo mais...
Existem tantos potreiros nessa invernada do povo,
muitas mangueiras e bretes,
muitos currais, de onde as tropas jamais conseguem sair.

Pra alguns o cerco é mais forte e otrago mais racionado;
(Há que pastar-se ajoelhado, garantindo o necessário).
Quando amiuda o salário todo o brio perde a razão
e o cocho da humilhação emborca, vira ao contrário.

-Quem vive de previlégios pro certo se dá melhor-
Honestamente o trabalho não dá riqueza a ninguém;
Viver com dignidade é tudo o que eum ser humano
precisa pra ser feliz!

Por onde anda a justiça
prometida nos discursos quando falam os candidatos?
O poder fere a consciência,
sobe a idéia a prepotencia na gana dos insensatos.

Por anda anda a vergonha e a garra dos "marca-touro"?
Capaz de dar um estouro pra espantar os graxains
que na calada da noite vivem pilhando a miséria,
sugando o sangue dos fracos,
fazendo rombos, buracos, com instintos de cupins.

Peço perdão da revolta, que às vezes fala mais alto,
nestas horas em que o mate me traz o verde do campo
na palma da minha mão,
e escuto o meu coração me pedindo pra voltar.

Me perdoem as palavras que às vezes soam pesadas,
mas tenho as vistas cançadas de tanta dor enxergar.

Queria voltar no tempo, encilhar um pingo bueno,
recorrer todas as estâncias e contar pra todo mundo
que esse luxo da cidade é tudo, tudo, ilusão;
Que a vida só tem sentido pra quem ama a natureza,
que a ganancia e a avareza corroem os sentimentos
com as armas do desamor...

Porém, me sobra tão pouco nesse viver de lembranças,
e só me resta a esperança que rebrotem nas coxilhas
os ideiais farroupilhas, com toda a força e tenência,
para salvar a querência das injustiças sociais,
dando um exemplo aos demais,
pois somos a descendência da raça mais altaneira,
temos a herança guerreira dos charruas e minuanos,
-Nós somos republicanos... Há Pátria em nossa Bandeira

Quando a alma encilha um verso

Autor: Élson Lemos
Intérprete: Jadir Oliveira
Amadrinhador: Giancarlo Almeida

Andei por tantos lugares nos labirintos da vida,
campeando estrada, distância, rumo, raiz e razão...
...juntei amigos, amores, silêncios
e cicatrizes aos amargos
madrugueiros que me adoçam auroras
e abandonei as esporas, nalgum canto do galpão.

Hoje o pingo que monto é o puro sentimento
é a palavra em movimento
num verso que a alma encilha,
levando várzea, coxilha, arroio, sanga, açude
ou talvez a lida rude que se estende na invernada,
numa tropa encordoada...
...sobre a folha de papel.

O verso que a alma encilha vai preenchendo vazios,
corre ao compasso de rio, com silencio de vertentes,
fala de amores ausentes, de sonhos e desenganos,
da história e de momentos que a memória não apaga,
assim segue sua saga,
pela paisagem sulina inundando tantas retinas...
...cacimbas dos sentimentos.

No verso que a alma encilha,
corcoveia um redomão
é o bater do coração de quem gineteia a "pena"
quando a ilusão pavena peala de toda a trança
no potreiro das lembranças...
...uma saudade morena.

Sei que esse verso me leva onde jamais chegarei,
e o sonho que sonhei, ganhou vida no papel,
descrevendo terra, céu, a noite e a lua sinuêla
ou talvez tropas de estrelas na imensidão do universo,
quando a alma encilha um veso,
o sonho sai campo à fora e vai além das porteiras.

E quando eu alçar a perna pra estancia do infinito,
este verso, tal qual o grito de um guerreiro legendário,
ecoará pelas coxilhas e mesmo na minha auxência,
será a voz da querência, falando de amor a terra,
cruzadas de paz e guerra, saudades e solidão...
...porque o verso é uma semente
irrigada pela vertente onde flui a inspiração.

O verso que a alma encilha
é campo, estrada e lida, é alívio pras feridas,
é peleia por melhor sorte,
o verso que a alma encilha
é chegada, é partida, é apologia à vida...
...que vai transcender a morte!!!

Sobre a luz do que sou - Rio Grande

Autor: Loresoni Barbosa
Intérprete: Tanara Barbosa
Amadrinhador: Francis Barbosa

Trago taperas no interior da alma
com fúnebres silêncios nos arredores,
a vida exilou-se com seus moradores,
prenderam os pássaros, suas sinfonias,
tristes margaridas enfeitam os dias
e enlutados pairam os beija-flores.

Também habitam minhas míseras posses
escalavradas pela insensatez do homem,
descuidadas ruínas de figueiras velhas
sombras e sestas - no calor das tardes -
são quase memórias para mim - tão jovem -
ja desnudado por mãos tão covardes.

Sobre o que fui, imensidão de campos
deslpilcharam aços pra fruror da guerra,
o sangue verteu das veias - tão torpe! -
Que senti o sopro da morte com gosto de fel,
absorvi com vergonha a carniça dos filhos
e me fiz mortalha para os maltrapilhos
que só tinham o dia, a noite e o céu.

Sim, recorreram-me incessantemente
pelos séculos que se passaram,
ora lusos contra castelhanos
ora ambos a eximir hermanos,
ja batizados pelas reduções
mas que não tinham em seus corações
a dureza das pedras que outrora empilharam.

Nem por isso me cantem com tristezas apenas,
pois o que fui ficou na história,
no grito bem audível do charrua
desgarroteando alçados para os imigrantes,
na covardia austera dos bandeirantes
estorquindo inocência e telurismo
no estrondo da América que nascia.

O amargo e a pureza do porongo guarany
que harmonizava a prosa dos justos;
hoje recorrem inocentes mãos,
a esmolar as sobras dos ricos de penas
que trazem pobrezas no vazio das almas,
infundados sonhos no interior dos olhos,
e o frio dos amargos invernos
blindando a dureza de seus corações.

Quis ser apenas um - liberdade -
fui preso, fui desdenhado,
fui vendido e fui comprado
por tratados - destratados -
no chá das quatro, além mar,
mas os meus donos de fato,
margeiam pelos asfaltos,
estorvam pelas calçadas,
imundam minha capital.

O tempo dissovle,
resove tudo a seu modo;
E o homem louco dispara
sem ver que ele é quem passa,
se deita com a ganancia
sonha ser Deus ou poeta
acorda e não rega as plantas.

Sigo a inspirar os poetas,
ser verso é bom afinal!
Se do que fui pouco resta
o esquecimento é fatal!...

Desfaço-me terra santa,
disfarço-me terra bruta,
declaro-me passível a teus pés,
destilo-me suor da semente vida
devolvo-me trigais e vinhas,
Dissolvo-me erosões e cinazas,
Devolvo-me horizonte ainda
Para tua contemplação...

Trago arranha-céus no exterior da alma
com eloquentes fantasmas em seus arredores.
A vida distrai-se com seus predadores,
compram-se sombras, suas sinfonias,
a frias flores pra alegrar os dias,
e ofuscados pisacam os vaga-lumes...

Mas eu, - Rio Grande - renascerei aos poucos,
quero ser eterno - anfitrião gigante -
pois sobram gaúchos nos fundões da pampa,
versos na pena de um velho poeta,
e uma cantiga ecoando nas taperas
que até parece que é Spé quem cant

Um sonho e nada mais...

Autor: Carlos Omar Villela Gomes
Intérprete: Liliana Cardoso
Amadrinhador: Luis Kur

Espalho na madrugada seu olhar,
como campeando os motivos
dos tantos rastros deixados,
dos retratos apagados
de quem foi, pra nao voltar...
Renasceu na luz de um fogo antigo,
pela estranha bênção, ou castigo
de querer, sem alcañçar...
De lutar pela paixão de um sonho
e nada mais.

O cavalo, os arreios, as lonjuras,
noite escura, erva buena, imensidao...
Alma de estrelas abraçando o tempo,
tantas esperas retoçando o peito
que já faz tempo, ganhou a liberdade
enfrentando as solidões e tempestades
pela paixão de um sonho
e nada mais.

Campeiro sim, correndo as sesmarias
de pago em pago, recortando os mapas...
Qual uma nova incursão farrapa
buscando um naco de dignidade
pelas distâncias do seu próprio chão,
que ainda existem homens de verdade...
Que ainda existe fé no coração.

Um ranchinho, já faz anos,
mal se lembra;
a paz, uma flor, uma razão,
e a clara lua do olhar da prenda...

Depois a estrada, a poeira, o infinito
que tomou por seu, sem pensar,
atrás de algo que julgou perdido
em algum avesso incerto
das trilhas gastas que compõe o mundo,
ou além de cada novo passo
que estradeia firme, sem jamais voltar.

espalhou na madrugada seu olhar
co'a mesma febre do furor gaudério
que gravou seu nome na figueira antiga,
guardiã de tantos que vagueiam sós.
Matizou um viver tão diferente,
sem injustiças e desigualdades,
ceifando a fúria das razões covardes
que roubam pão e oferecem pó.

Há tantos retirantes nesse tempo,
já descrentes da paz e divindade...
Alguns deixando as cruzes da cidade,
alguns deixando a fome desses campos,
enregues às agruras do destino
que por maula, lhes negou a sorte.

Mas ele não se entrega, ainda insite,
talvez nao mais co'o braço firme e forte,
mas co'a mesma coragem e tutano
de escrever sua própria história...
Somando mais derrotas que vitórias,
mas por certo a história de um valente.

Horizontes...
Ah, horizontes sao pequenos pra quem nunca para,
querendo mais do que a visão alcança...
Alimentando a sublime esperança
de encontrar o ouro puro das searas
que esperam ricas num confim de mundo,
dando fortuna aos que souberam crer.

Filhos não teve, ao menos que soubesse...
Deixou raízes já quase desvalidas,
nesta coragem de pechar a vida
que às vezes fecha as portas pra o cristão,
e faz brotar no mais dócil coração
indagações, revoltas, temporais...

Firma o olhar na madrugada fria
numa feição misto futuro e nostalgia,
calando as dores que machucam fundo,
buscando um amanhã bem mais fecundo,
com a paz de quem se foi na ventania
pela paixão de um sonho,
e nada mais!!!

3º Querência