Realizada em 16/12/2006 em Caxias do Sul
Poemas:
1º Lugar: Quando o Sol Caiu - Carlos Omar Villela Gomes/Santa Maria
Interpretada por Anderson T Cardoso e Amadrinhada por Geraldo Trindade Ambos de Porto Alegre
2º Lugar: Réquiem ao Pajador - Vaine Darde/Capão da Canoa
Interpretada por Pedro Jr da Fontoura/Bento Gonçalves e Amadrinhada por Leonardo Charrua – São Leopoldo
3º Lugar: Reculuta de Versos - Sebastião Teixeira Correa/Caxias do Sul
e João Hoffmann Marin/Londres
Interpretada por Carlos Aurélio Weber/Lajeado e Amadrinhada por César Furtado/Lages
Interpretes:
1º Lugar: Intérprete: Romeu Weber/Osório
com o poema: Nas Estrelas das Esporas de Colmar Duarte
2º Lugar: Carlos Aurélio Weber - Lajeado
com o poema Reculuta de Versos de Sebastião Teixeira Correa e João Hoffmann Marin
3º Lugar: Paulo Ricardo dos Santos – Passo Fundo
com o poema Morto... Agora Vivo o Proscrito de Luis Lopes de Souza
Amadrinhadores:
1º Lugar: Cláudio Silveira Filho/S do Livramento do Poema No Bolicho
de Cristiano Ferreira Intérpretado por Jose Claudio Pereira ambos de Santana do Livramento
2º Lugar: Geraldo Trindade/Porto Alegre do poema Nas Estrelas das Esporas
3º Lugar: Leonardo Charrua/São Leopoldo do poema Réquiem ao Pajador
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UM QUADRO DA ESTÂNCIA
Autor: Érico Rodrigo Padilha
Intérprete: Milton Galo Dessotti
Amadrinhador: Alcione Padilha
Duvido um dia mais lindo que um domingo ensolarado,
pra se passar espichado na varanda do galpão.
Golpeando “uns gole” de canha, tomando mate,
pitando um crioulo, fechado a capricho, de um fumo tão bueno,
comprado na venda do Nico Cardoso.
No rádio, um tal João Machado,
“arranca” notas bonitas
de uma gaita de botão
floreando um chamamezito
num vai e vem compassado.
O gado no pasto, pastando silente na beira do açude.
Manada de potros, seguindo em silencio,
ao tranco “muy” lento da égua madrinha,
rebanho de ovelhas branqueando a pastagem,
e o grito rasgado de algum quero-quero cortando a canhada...
Na várzea do açude, um bando de garças,
se assusta com bote de alguma traira
que abre rodrilhas na flor do aguapé.
Na volta das casas, o cusco ovelheiro,
dormindo tranqüilo na sombra do rancho
e alguma galinha limpando o terreiro.
O manso João-Grande de asas abertas,
num vôo estendido pra os lados do poente,
parece até um anjo de braços abertos, descendo pra terra,
querendo salvar a alma da gente.
Pra os lados do cerro, o ronco sentido
de algum bugio macho chamando a parceira,
ecoa solito no ermo do campo
e chega com força pra os lados do rancho.
-Quanto causo, quanta lenda, nesses fundões de campanha!
... Bem ali no Capão alto, na encosta do Cerro grande,
há uma tapera abandonada...
A cuscada chimarrona, tomou conta da morada
do finado Juventino.
Coitado do Juventino...
Perdêra tudo o que tinha num domingo de carreira
e se enforcou numa figueira bem atrás do seu ranchinho...
... Mais adiante na canhada, descendo lançante abaixo
pra os lados do cemitério, diz que o neto do seu Doca,
se topou com o “lobisome” numa noite de setembro.
Guri ladino e maleva, voltou mais “Branco” e assustado
Que tatu encurralado numa toca abandonada...
Às vezes, me perco, mirando o horizonte,
remoendo recuerdos de lindas lembranças,
lembranças tão vivas, com cheiro de infância,
às vezes fugazes, as vezes perdidas,
mas nunca esquecidas, são partes da Estância,
tamanha a importância na vida da gente.
Recordo a piazada dos tempos de infância,
das tropas-de-osso, bodoque ao pescoço,
correndo sem rumo pra os banhos de sanga.
O pai na mangueira, lidando com o gado,
a mãe “pelas casa”, tratando dos bichos,
e do meu ofício, “guri de recado” .
- Que tempos aqueles!
E quando já moços num fundo de campo,
lidando com o gado, marcando e banhando,
tosando a martelo, na safra dos velos,
depois da jornada, n’algum olho-d’água,
beirando a sanguita por entre as canhadas,
voltando ao galpão pra um dedo de prosa,
contando da lida, do gado e da tosa,
na hora do mate, a Hora Sagrada.
E os fins de semana, mas que gauchadas!
Cavalo encilhado pra os dias de festa,
fandangos de campo, bailão de ramada,
dançando pachola co’alguma “morocha”
um chote “clinudo”, ou uma vaneira marcada!
E a dona do rancho...
que china lindaça, que flor de morena,
a prenda mais linda que um dia eu já vi,
tão meiga e tão doce qual flor da açucena.
E eu bagual bruto, de tantas potreadas,
me fiz potro manso, diante os encantos daquela morena.
E os anos foram passando...
Chegaram os filhos, vieram os netos,
enfim, o progresso.
Os filhos criados pegaram seus rumos,
já faz algum tempo que a velha se foi,
deixando saudades, cá dentro do peito
e lindos recuerdos no meu pensamento...
Bueno, o sol se despede por trás da coxilha,
deixando um clarão na boca da noite
que desde de manso cobrindo o rincão.
A lua se achega pra os lados do rancho
e esboça um retrato no quadro da estância,
deixando seu brilho na tela do pago,
enchendo meus olhos de campo e saudade,
que por certo, um Deus pintor, escolheu pra retratar.
Intérprete: Milton Galo Dessotti
Amadrinhador: Alcione Padilha
Duvido um dia mais lindo que um domingo ensolarado,
pra se passar espichado na varanda do galpão.
Golpeando “uns gole” de canha, tomando mate,
pitando um crioulo, fechado a capricho, de um fumo tão bueno,
comprado na venda do Nico Cardoso.
No rádio, um tal João Machado,
“arranca” notas bonitas
de uma gaita de botão
floreando um chamamezito
num vai e vem compassado.
O gado no pasto, pastando silente na beira do açude.
Manada de potros, seguindo em silencio,
ao tranco “muy” lento da égua madrinha,
rebanho de ovelhas branqueando a pastagem,
e o grito rasgado de algum quero-quero cortando a canhada...
Na várzea do açude, um bando de garças,
se assusta com bote de alguma traira
que abre rodrilhas na flor do aguapé.
Na volta das casas, o cusco ovelheiro,
dormindo tranqüilo na sombra do rancho
e alguma galinha limpando o terreiro.
O manso João-Grande de asas abertas,
num vôo estendido pra os lados do poente,
parece até um anjo de braços abertos, descendo pra terra,
querendo salvar a alma da gente.
Pra os lados do cerro, o ronco sentido
de algum bugio macho chamando a parceira,
ecoa solito no ermo do campo
e chega com força pra os lados do rancho.
-Quanto causo, quanta lenda, nesses fundões de campanha!
... Bem ali no Capão alto, na encosta do Cerro grande,
há uma tapera abandonada...
A cuscada chimarrona, tomou conta da morada
do finado Juventino.
Coitado do Juventino...
Perdêra tudo o que tinha num domingo de carreira
e se enforcou numa figueira bem atrás do seu ranchinho...
... Mais adiante na canhada, descendo lançante abaixo
pra os lados do cemitério, diz que o neto do seu Doca,
se topou com o “lobisome” numa noite de setembro.
Guri ladino e maleva, voltou mais “Branco” e assustado
Que tatu encurralado numa toca abandonada...
Às vezes, me perco, mirando o horizonte,
remoendo recuerdos de lindas lembranças,
lembranças tão vivas, com cheiro de infância,
às vezes fugazes, as vezes perdidas,
mas nunca esquecidas, são partes da Estância,
tamanha a importância na vida da gente.
Recordo a piazada dos tempos de infância,
das tropas-de-osso, bodoque ao pescoço,
correndo sem rumo pra os banhos de sanga.
O pai na mangueira, lidando com o gado,
a mãe “pelas casa”, tratando dos bichos,
e do meu ofício, “guri de recado” .
- Que tempos aqueles!
E quando já moços num fundo de campo,
lidando com o gado, marcando e banhando,
tosando a martelo, na safra dos velos,
depois da jornada, n’algum olho-d’água,
beirando a sanguita por entre as canhadas,
voltando ao galpão pra um dedo de prosa,
contando da lida, do gado e da tosa,
na hora do mate, a Hora Sagrada.
E os fins de semana, mas que gauchadas!
Cavalo encilhado pra os dias de festa,
fandangos de campo, bailão de ramada,
dançando pachola co’alguma “morocha”
um chote “clinudo”, ou uma vaneira marcada!
E a dona do rancho...
que china lindaça, que flor de morena,
a prenda mais linda que um dia eu já vi,
tão meiga e tão doce qual flor da açucena.
E eu bagual bruto, de tantas potreadas,
me fiz potro manso, diante os encantos daquela morena.
E os anos foram passando...
Chegaram os filhos, vieram os netos,
enfim, o progresso.
Os filhos criados pegaram seus rumos,
já faz algum tempo que a velha se foi,
deixando saudades, cá dentro do peito
e lindos recuerdos no meu pensamento...
Bueno, o sol se despede por trás da coxilha,
deixando um clarão na boca da noite
que desde de manso cobrindo o rincão.
A lua se achega pra os lados do rancho
e esboça um retrato no quadro da estância,
deixando seu brilho na tela do pago,
enchendo meus olhos de campo e saudade,
que por certo, um Deus pintor, escolheu pra retratar.
UM HOMEM NO RUMO DO SEU TEMPO
Autor: Jorge Chaves
Intérprete: Cristiano Ferreira
Amadrinhador: Cláudio Silveira Filho
Pra quem traz a sina
De um rumo certo perdido de si...
Por encruzilhadas tão enforquilhadas
Como eu já me vi,
Que tire os arreios... refrescando o lombo,
Desvie os atalhos com olhos graúdos,
Repense os caminhos pro homem-guri.
Idéias ligeiras...
Que nascem do nada aos redemoinhos,
- Extraviam sonhos de aves por ninhos -
Misturam as tropas pelos corredores...
Caducas - perdidas – cansadas de andar,
Com marcas distintas e “hállenos” sinais.
Quem anda solito vive de quimeras
E o peito às taperas...
Guarda temporais.
Sementes e amores,
Em terras “ardidas”, gorgulham... sem vida,
Perdem-se da aurora sem frutificar.
- Aprendi a golpes, de tanto encilhar -
Desfio um rosário cruzando os meus tentos,
Alinho meus rumos, confiro os aprumos,
Pra não me enredar!
Já sovei estradas e pisei sebrunos
A trotes ladrões.
Já cravei esporas retrucando as horas
...Mangueando ilusões!
Quis vencer o tempo...
Me roubaram mates e desencilhadas.
Secaram vertentes de contentamentos
De tanto sangrar!...
Juntando os tições e os restolhos de mim,
Hiberno o destino... com as tropas do outono,
Apêros recolho no inverno teatino
Que engraxa as ladeiras -malevas- traiçoeiras.
...E foi de sobre-lombo
Que estendi meu laço...
Não cruzei o rastro e me “estropiei” num tombo.
Malfadada sina de acasos travessos,
Pisará minha sombra por onde eu andar?
...Pra enrolar minhas loncas
Com sal e com pompas,
Num dia carrasco de agosto a ventar?...
Com “suertes e culos”... cancheiro aprendi.
- Já não me convém - repassar mais distâncias
Por léguas canhotas.
Minhas velhas botas
Vão gastando o couro às voltas por aqui.
Se o lático estoura
- Já conheço as baldas - não golpeio espaldas -
Desnucando as ânsias minguadas...
Que restam pro homem-guri.
- Quem terá pregado -
Que a doce ribalta do homem está longe?...
Quem falou pro guasca:
- A soga do pago não deixa engordar!
Em qual pergaminho talhou Deus ou Judas,
Carrancuda lei:
Que a felicidade em verdade...
Se esconde por outro lugar?
Quem se desentóra da velha querência,
Busca-lhe a saudade, pra o véu derradeiro
- Ou tomba o campeiro – afogado na ausência,
Voltando a cabeça pras “bandas” do pampa!
Quem se enraíza na terra que ama
A cultuar valores em mansos repontes,
Não exila potros, nem “cerra” horizontes
Pra alma gaudéria... liberta e feliz.
Costeando sogueiros, galpões e braseiros...
Venera os amigos na essência do amargo.
Somando cultura, anseios, talento...
Prega ensinamentos pra outros guris!
Abraço a ternura...
Nos olhos de um filho, se abrindo ao futuro.
- Há um lume no escuro -
É a minha esperança bombiando o infinito.
Quem tem uma cria
E arreia um petiço... fecunda a experiência!
Rebrota na ciência
De não perecer... num trancão de solito.
----------------------------------------------------------
OBS: SUERTES E CULOS – respectivamente os nomes que recebem, em espanhol, cada um dos lados do osso usado no jogo de mesmo nome ou Tava. Sorte ou azar.ARDIDAS – expressão fronteiriça quase extinta paa adjetivar terra árida, não fértil.
Intérprete: Cristiano Ferreira
Amadrinhador: Cláudio Silveira Filho
Pra quem traz a sina
De um rumo certo perdido de si...
Por encruzilhadas tão enforquilhadas
Como eu já me vi,
Que tire os arreios... refrescando o lombo,
Desvie os atalhos com olhos graúdos,
Repense os caminhos pro homem-guri.
Idéias ligeiras...
Que nascem do nada aos redemoinhos,
- Extraviam sonhos de aves por ninhos -
Misturam as tropas pelos corredores...
Caducas - perdidas – cansadas de andar,
Com marcas distintas e “hállenos” sinais.
Quem anda solito vive de quimeras
E o peito às taperas...
Guarda temporais.
Sementes e amores,
Em terras “ardidas”, gorgulham... sem vida,
Perdem-se da aurora sem frutificar.
- Aprendi a golpes, de tanto encilhar -
Desfio um rosário cruzando os meus tentos,
Alinho meus rumos, confiro os aprumos,
Pra não me enredar!
Já sovei estradas e pisei sebrunos
A trotes ladrões.
Já cravei esporas retrucando as horas
...Mangueando ilusões!
Quis vencer o tempo...
Me roubaram mates e desencilhadas.
Secaram vertentes de contentamentos
De tanto sangrar!...
Juntando os tições e os restolhos de mim,
Hiberno o destino... com as tropas do outono,
Apêros recolho no inverno teatino
Que engraxa as ladeiras -malevas- traiçoeiras.
...E foi de sobre-lombo
Que estendi meu laço...
Não cruzei o rastro e me “estropiei” num tombo.
Malfadada sina de acasos travessos,
Pisará minha sombra por onde eu andar?
...Pra enrolar minhas loncas
Com sal e com pompas,
Num dia carrasco de agosto a ventar?...
Com “suertes e culos”... cancheiro aprendi.
- Já não me convém - repassar mais distâncias
Por léguas canhotas.
Minhas velhas botas
Vão gastando o couro às voltas por aqui.
Se o lático estoura
- Já conheço as baldas - não golpeio espaldas -
Desnucando as ânsias minguadas...
Que restam pro homem-guri.
- Quem terá pregado -
Que a doce ribalta do homem está longe?...
Quem falou pro guasca:
- A soga do pago não deixa engordar!
Em qual pergaminho talhou Deus ou Judas,
Carrancuda lei:
Que a felicidade em verdade...
Se esconde por outro lugar?
Quem se desentóra da velha querência,
Busca-lhe a saudade, pra o véu derradeiro
- Ou tomba o campeiro – afogado na ausência,
Voltando a cabeça pras “bandas” do pampa!
Quem se enraíza na terra que ama
A cultuar valores em mansos repontes,
Não exila potros, nem “cerra” horizontes
Pra alma gaudéria... liberta e feliz.
Costeando sogueiros, galpões e braseiros...
Venera os amigos na essência do amargo.
Somando cultura, anseios, talento...
Prega ensinamentos pra outros guris!
Abraço a ternura...
Nos olhos de um filho, se abrindo ao futuro.
- Há um lume no escuro -
É a minha esperança bombiando o infinito.
Quem tem uma cria
E arreia um petiço... fecunda a experiência!
Rebrota na ciência
De não perecer... num trancão de solito.
----------------------------------------------------------
OBS: SUERTES E CULOS – respectivamente os nomes que recebem, em espanhol, cada um dos lados do osso usado no jogo de mesmo nome ou Tava. Sorte ou azar.ARDIDAS – expressão fronteiriça quase extinta paa adjetivar terra árida, não fértil.
UM CERTO CAPITÃO MARIANO FLÔRES
Autor: Moisés Silveira de Menezes
Interprete: Andréa Nunes Sá Brito
Amadrinhador: Christian Gutterres
Um regimento aguerrido
viu-se preso de repente
numa engenhosa emboscada,
a frente mil de a cavalo
fina flor da descendência
da gente de Souza Neto,
quase isso a retaguarda
infantaria de lei
gente experiente, quadrado
mosquete, sabre francês
estudados na cartilha
do velho mestre Sampaio.
O olhar varre a direita
socavões, cerros, peraus
travessia intransponível
escarpas além dos olhos
cortina de cerração,
cruzam balas sibilando
num deboche de mau gosto,
por sobre a grimpa dos cerros
a morte espreita em silencio.
Achicou-se num repente
o mundo da pampa larga
de gastar potros e arreios
Recorrendo o flanco esquerdo
percebeu perfeito o cerco
quando banhados e chircas
tremedais e sumidouros
descortinaram-se aos poucos.
Saberia o comandante
por certo, pensou Mariano
sair-se dessa enrrascada
a ele, então caberia
comandar seu esquadrão
fosse quem fosse o contrario,
qualquer que fosse a proposta
Cepa moura, o velho avô,
vaqueano de campo e guerra
bandeirando um pala índio
cruzara riscando mapas
a pampa sul-amerindia.
Comandou cargas de lança
contra Rosas, Oribe e Aguirre.
Por capricho e por ser guapo
Caronte veio encontrá-lo
já mui lejo dos oitenta
à sombra das casuarinas
nos campos do Chiniquá.
O pai,caudilho de escol,
montando um zaino tapado,
rubro lenço drapejando
espada folha de Espanha
cortou caminhos e homens,
corpeou ponteiras de lança
zombou de balas e adagas
nas guerrilhas de Aparício.
Permitiu-lhe ainda o tempo
que transmitisse um legado:
-Honrar o lenço e a bandeira
Recuar!? Nunca! Jamais!
Montaram trezentos homens
Mariano Flôres ao centro
Vulcano incendia o campo.
Trovejam cascos, tambores
lampeja um furor nos olhos,
centaura herança beduina.
Partiu-se o quadrado infante
ao choque da quinta carga,
onda de homens e potros,
zunidos, brados, relinchos
aquarela tenebrosa,
sinfonia barbaresca
numa ode a liberdade.
Vida e morte se entrechocam
em honra a um deus insaciável,
fantasmareia uma sombra
povoando a tarde brumenta.
- Chamem o velho barqueiro!
Que um azulego estreleiro
esbarrou no rio Estige.
Apeou seguro e com jeito
de quem leu vida e destino,
um capitão comandante
que honrou legado e herança
querência, lenço e bandeira!!!
Interprete: Andréa Nunes Sá Brito
Amadrinhador: Christian Gutterres
Um regimento aguerrido
viu-se preso de repente
numa engenhosa emboscada,
a frente mil de a cavalo
fina flor da descendência
da gente de Souza Neto,
quase isso a retaguarda
infantaria de lei
gente experiente, quadrado
mosquete, sabre francês
estudados na cartilha
do velho mestre Sampaio.
O olhar varre a direita
socavões, cerros, peraus
travessia intransponível
escarpas além dos olhos
cortina de cerração,
cruzam balas sibilando
num deboche de mau gosto,
por sobre a grimpa dos cerros
a morte espreita em silencio.
Achicou-se num repente
o mundo da pampa larga
de gastar potros e arreios
Recorrendo o flanco esquerdo
percebeu perfeito o cerco
quando banhados e chircas
tremedais e sumidouros
descortinaram-se aos poucos.
Saberia o comandante
por certo, pensou Mariano
sair-se dessa enrrascada
a ele, então caberia
comandar seu esquadrão
fosse quem fosse o contrario,
qualquer que fosse a proposta
Cepa moura, o velho avô,
vaqueano de campo e guerra
bandeirando um pala índio
cruzara riscando mapas
a pampa sul-amerindia.
Comandou cargas de lança
contra Rosas, Oribe e Aguirre.
Por capricho e por ser guapo
Caronte veio encontrá-lo
já mui lejo dos oitenta
à sombra das casuarinas
nos campos do Chiniquá.
O pai,caudilho de escol,
montando um zaino tapado,
rubro lenço drapejando
espada folha de Espanha
cortou caminhos e homens,
corpeou ponteiras de lança
zombou de balas e adagas
nas guerrilhas de Aparício.
Permitiu-lhe ainda o tempo
que transmitisse um legado:
-Honrar o lenço e a bandeira
Recuar!? Nunca! Jamais!
Montaram trezentos homens
Mariano Flôres ao centro
Vulcano incendia o campo.
Trovejam cascos, tambores
lampeja um furor nos olhos,
centaura herança beduina.
Partiu-se o quadrado infante
ao choque da quinta carga,
onda de homens e potros,
zunidos, brados, relinchos
aquarela tenebrosa,
sinfonia barbaresca
numa ode a liberdade.
Vida e morte se entrechocam
em honra a um deus insaciável,
fantasmareia uma sombra
povoando a tarde brumenta.
- Chamem o velho barqueiro!
Que um azulego estreleiro
esbarrou no rio Estige.
Apeou seguro e com jeito
de quem leu vida e destino,
um capitão comandante
que honrou legado e herança
querência, lenço e bandeira!!!
RÉQUIEM AO PAJADOR
Autor: Vaine Darde
Interprete: Pedro jr da Fontoura
Amadrinhador: Leonardo Charrua
Eu não direi de ti a ausência ardente,
A falta que a guitarra ainda chora,
Ocaso que ficou dentro da gente
Naquela noite triste sem aurora.
Eu só direi de ti a lira inquieta
Que o vento vem tanger nas casuarinas,
O rio que, em murmúrios, desatina
Pranteando o pajador na pampa aberta.
Todo violão se fez um ataúde...
Mas ressuscitas dessa Arcádia morta
Pra pôr cadência nas sonatas rudes
Dos que o destino não abriu a porta.
Pois te declamam, nos confins rurais,
O peão humilde pra ninar a prenda,
O piá gaúcho pra cantar legendas
E os cata-ventos pelos temporais...
Eu não direi de ti o tom agreste
Da frase simples mas enluarada
Porque, há muito, tu já te fizeste
O mago d’arte de fazer pajada.
Alguns romeiros te acendem velas
Em rezas xucras de vocabulário,
Outros se tornam teus fiéis templários
Nas pulperias onde te revelas...
Teu canto tinha vozes de ‘cordeona,
A chama bailarina do lampião,
A água borbulhante da cambona
E esporas cochichando no galpão.
Cantor das aflições dos arrabaldes,
Em tua tessitura missioneira,
Sabias dos acordes das goteiras
Cantando o vendaval dentro das baldes.
Ninguém irá herdar o teu idioma
- Rebanho que só tu apascentavas -
Em cânticos de bailes ou de domas
Detinhas o domínio da palavra.
É sempre a mesma história...
o mesmo tema...
Blasfemo te imitando o sortilégio
Chegando a cometer o sacrilégio
De ter um verso teu no meu poema.
E quando chove ausência nos meus olhos
Nas longas madrugadas da campanha,
Sozinho, co’a guitarra sobre o colo,
É sempre um verso teu que me acompanha.
Jamais existirá alguém igual,
Jamais alguém terá a tua pena,
Na eterna trajetória do poema
Nasceste para ser outro imortal!
A ausência que deixaste é ilusória...
Não sei, se por encanto ou por magia,
Agora, tu também és poesia
Translúcida em sonora trajetória.
Tamanha foi a força do teu dom
Que, mesmo, sendo a vida só um sopro...
Tu já não necessitas ter um corpo
Porque és mais um ser de luz e som.
Interprete: Pedro jr da Fontoura
Amadrinhador: Leonardo Charrua
Eu não direi de ti a ausência ardente,
A falta que a guitarra ainda chora,
Ocaso que ficou dentro da gente
Naquela noite triste sem aurora.
Eu só direi de ti a lira inquieta
Que o vento vem tanger nas casuarinas,
O rio que, em murmúrios, desatina
Pranteando o pajador na pampa aberta.
Todo violão se fez um ataúde...
Mas ressuscitas dessa Arcádia morta
Pra pôr cadência nas sonatas rudes
Dos que o destino não abriu a porta.
Pois te declamam, nos confins rurais,
O peão humilde pra ninar a prenda,
O piá gaúcho pra cantar legendas
E os cata-ventos pelos temporais...
Eu não direi de ti o tom agreste
Da frase simples mas enluarada
Porque, há muito, tu já te fizeste
O mago d’arte de fazer pajada.
Alguns romeiros te acendem velas
Em rezas xucras de vocabulário,
Outros se tornam teus fiéis templários
Nas pulperias onde te revelas...
Teu canto tinha vozes de ‘cordeona,
A chama bailarina do lampião,
A água borbulhante da cambona
E esporas cochichando no galpão.
Cantor das aflições dos arrabaldes,
Em tua tessitura missioneira,
Sabias dos acordes das goteiras
Cantando o vendaval dentro das baldes.
Ninguém irá herdar o teu idioma
- Rebanho que só tu apascentavas -
Em cânticos de bailes ou de domas
Detinhas o domínio da palavra.
É sempre a mesma história...
o mesmo tema...
Blasfemo te imitando o sortilégio
Chegando a cometer o sacrilégio
De ter um verso teu no meu poema.
E quando chove ausência nos meus olhos
Nas longas madrugadas da campanha,
Sozinho, co’a guitarra sobre o colo,
É sempre um verso teu que me acompanha.
Jamais existirá alguém igual,
Jamais alguém terá a tua pena,
Na eterna trajetória do poema
Nasceste para ser outro imortal!
A ausência que deixaste é ilusória...
Não sei, se por encanto ou por magia,
Agora, tu também és poesia
Translúcida em sonora trajetória.
Tamanha foi a força do teu dom
Que, mesmo, sendo a vida só um sopro...
Tu já não necessitas ter um corpo
Porque és mais um ser de luz e som.
RECULUTA DE VERSOS
Autor: Sebastião Teixeira Correa/João Marin
Interprete: Carlos Aurélio Weber
Amadrinhador: Fernando Graciola
Matear ao pé do fogo divaga nossos pensares,
É nestas horas que a gente dá asas pro pensamento…
O meu, engarupou-se no vento,
q’adentrou pelo meu rancho.
Liberto, ganhou o mundo , com uma finalidade,
Reculutar versos tantos pra formar minha manada…
Foi assim, quase num upa, nem sequer se despediu.
Lembro a mala de garupa, num resto desta visão,
Poeira tapando a estrada, e a batida d’um portão…
Apartados num piquete, da mangueira de papel,
Vou fazer a seleção dos velhos, xucros, ventenas…
Caneta feito ginete, já á dou jeito nos “veneta”,
Pensamento feito esporas, falquejo aqueles mais xucros…
Os mais velhos, já polidos, será padrinhos do tema,
Desta tropilha de versos, q’eu hei de chamar poema…
Por de sol, e fim de tarde, chega a lua pro seu turno.
Feito duas sentinelas, cambiando a guarda na estância,
Fizeram-se meus parceiros, compartilhando esta ânsia…
Passaram horas, os dias, também passaram-se meses,
Até me “olvido” se às vezes foi uma ou mais invernias…
É nestas horas que o peito, traz recuerdos da guarita,
“Talvez, por ser GARIBALDI, não se meteu em pendengas?
Ou se enredou por amores, nos braços de alguma ANITA…
“Fiquei assim, chimarreando nos fins de dias, infindos,
Até que um dia, sorrindo, se achegou sem muito alarde,
Retornou pra sua essência, numa calada de tarde…
Polegadas de sorriso, que não se cabe entre orelhas,
E uma mala de garupa qual fase de lua ( CHEIA )…
Contou-me tudo o que viu e “cousas” que não quisera:
- Vi ranchos feitos tapera, rios bebendo pesticidas,
O campo já revoltado pelo arado da agroindústria,
Olhares de pura angústia fotografando a verdade…
Engordando as romarias, de esperanças alijadas,
(Se equilibra no vazio, peão rumando pra o nada…)
Vi ranchos enfileirados d’outro lado do aramado,
Esperando seu bocado d’uma terra prometida…
Ouvi lamúrios de piás, num fundo de beco, escuro,
Sonho de pai resumido num rancho de papelão,
E o choro parido seco, num desespero de mãe,
Desejo de dizer sim, mas a língua trai num ( Não )…
Vi comício à bola pé, candidatos discursando,
E a mentira atropelando ideais de boa fé…
Quem dera todas as falas viessem a ser cumpridas,
E os candidatos fizessem valer a velha premissa:
Mais vale uma boa ação, que a palavra proferida…
Cheguei a me perguntar se aquilo seria sina,
Numa diferença bruta, que eu vi pelas favelas,
Onde ruelas, feito güelas, fazem vezes de latrina…
Num esgoto a céu aberto, crianças chafurdam lodo,
E um povo sem instrução, acaba achando normal,
Pois nem sequer tem ciência, d’um tal programa social…
Vi, na alta sociedade, o homem saciar angústias,
Numa carreira assistida d’um modo bem diferente:
Não carece partidor, linha de chegada? Qual…
Onde as raias, numa mesa, alinhavam potros brancos,
Distribuídos em fileiras sobre o tampo de cristal !
Vi, a natureza em protesto, gritando na voz dos bichos,
E o farfalhar do arvoredo, quase mudo, agonizando,
Pois, ronco de moto-serra jaz os mesmos, propiciando,
Que a conta de uns e outros, vá aos poucos engordando…
Mas nem tudo foi tristeza.
Colhi na volta a certeza
Das sementes bem plantadas.
Mãos amigas me alcançando um mate quente a
preceito e um carreteiro à campeira, cozido daquele jeito…
Agora com seu permisso, preciso rever encilhas,
Guarnecer, lá no bolicho, minha mala de garupa,
Pois, ganho a estrada num upa, tão logo espreguice o sol.
Vou, dar de beber pr’essa tropa: esperança, novos dias...
Vou transformá-la num fato, onde vozes fazem vezes,
São bem mais q’um simples ato, mais que palavras vazias,
Semeadas das tribunas deixam de ser utopias,
Pra se tornarem então, sementes de opinião,
Nos festivais de poesias…
Interprete: Carlos Aurélio Weber
Amadrinhador: Fernando Graciola
Matear ao pé do fogo divaga nossos pensares,
É nestas horas que a gente dá asas pro pensamento…
O meu, engarupou-se no vento,
q’adentrou pelo meu rancho.
Liberto, ganhou o mundo , com uma finalidade,
Reculutar versos tantos pra formar minha manada…
Foi assim, quase num upa, nem sequer se despediu.
Lembro a mala de garupa, num resto desta visão,
Poeira tapando a estrada, e a batida d’um portão…
Apartados num piquete, da mangueira de papel,
Vou fazer a seleção dos velhos, xucros, ventenas…
Caneta feito ginete, já á dou jeito nos “veneta”,
Pensamento feito esporas, falquejo aqueles mais xucros…
Os mais velhos, já polidos, será padrinhos do tema,
Desta tropilha de versos, q’eu hei de chamar poema…
Por de sol, e fim de tarde, chega a lua pro seu turno.
Feito duas sentinelas, cambiando a guarda na estância,
Fizeram-se meus parceiros, compartilhando esta ânsia…
Passaram horas, os dias, também passaram-se meses,
Até me “olvido” se às vezes foi uma ou mais invernias…
É nestas horas que o peito, traz recuerdos da guarita,
“Talvez, por ser GARIBALDI, não se meteu em pendengas?
Ou se enredou por amores, nos braços de alguma ANITA…
“Fiquei assim, chimarreando nos fins de dias, infindos,
Até que um dia, sorrindo, se achegou sem muito alarde,
Retornou pra sua essência, numa calada de tarde…
Polegadas de sorriso, que não se cabe entre orelhas,
E uma mala de garupa qual fase de lua ( CHEIA )…
Contou-me tudo o que viu e “cousas” que não quisera:
- Vi ranchos feitos tapera, rios bebendo pesticidas,
O campo já revoltado pelo arado da agroindústria,
Olhares de pura angústia fotografando a verdade…
Engordando as romarias, de esperanças alijadas,
(Se equilibra no vazio, peão rumando pra o nada…)
Vi ranchos enfileirados d’outro lado do aramado,
Esperando seu bocado d’uma terra prometida…
Ouvi lamúrios de piás, num fundo de beco, escuro,
Sonho de pai resumido num rancho de papelão,
E o choro parido seco, num desespero de mãe,
Desejo de dizer sim, mas a língua trai num ( Não )…
Vi comício à bola pé, candidatos discursando,
E a mentira atropelando ideais de boa fé…
Quem dera todas as falas viessem a ser cumpridas,
E os candidatos fizessem valer a velha premissa:
Mais vale uma boa ação, que a palavra proferida…
Cheguei a me perguntar se aquilo seria sina,
Numa diferença bruta, que eu vi pelas favelas,
Onde ruelas, feito güelas, fazem vezes de latrina…
Num esgoto a céu aberto, crianças chafurdam lodo,
E um povo sem instrução, acaba achando normal,
Pois nem sequer tem ciência, d’um tal programa social…
Vi, na alta sociedade, o homem saciar angústias,
Numa carreira assistida d’um modo bem diferente:
Não carece partidor, linha de chegada? Qual…
Onde as raias, numa mesa, alinhavam potros brancos,
Distribuídos em fileiras sobre o tampo de cristal !
Vi, a natureza em protesto, gritando na voz dos bichos,
E o farfalhar do arvoredo, quase mudo, agonizando,
Pois, ronco de moto-serra jaz os mesmos, propiciando,
Que a conta de uns e outros, vá aos poucos engordando…
Mas nem tudo foi tristeza.
Colhi na volta a certeza
Das sementes bem plantadas.
Mãos amigas me alcançando um mate quente a
preceito e um carreteiro à campeira, cozido daquele jeito…
Agora com seu permisso, preciso rever encilhas,
Guarnecer, lá no bolicho, minha mala de garupa,
Pois, ganho a estrada num upa, tão logo espreguice o sol.
Vou, dar de beber pr’essa tropa: esperança, novos dias...
Vou transformá-la num fato, onde vozes fazem vezes,
São bem mais q’um simples ato, mais que palavras vazias,
Semeadas das tribunas deixam de ser utopias,
Pra se tornarem então, sementes de opinião,
Nos festivais de poesias…
QUANDO O SOL CAIU
Autor: Carlos Omar Vilella Gomes
Intérprete: Anderson Trautman Cardoso
Amadrinhador: Geraldo Trindade
Quando o sol caiu não solucei,
Enchi o peito com o ar que ainda tinha
E pensando estar pensando não pensei.
Os laços e esperanças ramalharam,
As notas da guitarra se calaram
Em nome de um destino que eu herdei.
Quando o sol caiu me desarmei...
Mirei sem desencanto o horizonte
Com olhos de uma história que eu não sei.
A Terra se partiu num grande abismo
E à beira desse abismo eu me abanquei.
O choro retumbou nos meus ouvidos
No tom amplificado de um trovão;
Paralisando vozes e sentidos,
Gelando e incendiando o coração.
A Lira, sem rituais, cortou os pulsos,
Lembrando de um amor que não provou;
E o poeta revisou seus absurdos
No sangue que a Lira derramou.
Quando o sol caiu sequei o mate
Num último resquício de prazer...
Num último recado à solidão.
Não importavam mais os alambrados...
Nem o silêncio dos desesperados,
Nem o futuro me escondendo a mão.
Não havia pandorgas pelo céu
Nem cruzavam canoas pelos rios...
As potradas cessaram seus tropéis,
Tantos dedos negando seus anéis,
Tantas caras sorvendo seus estios.
A minha faca estava bem afiada,
Minha bombacha estava bem passada
E a minha alma estava por estar;
O sol beijou com sua boca quente,
Um gosto doce salivou no beijo
E nesse instante me encontrei em paz.
Quando o sol caiu, eu tinha febre,
Fazendo contraponto ao seu calor...
A pele do silêncio ficou leve
Tatuada com brasão de estranha cor.
Quando o sol caiu, também caí,
No abismo que eu costeava sem sentir...
No fundo desse caos que eu não cavei.
Talvez um dia eu volte por ali...
Quando o sol caiu, eu renasci,
E ao lado do meu catre...
...despertei!
Intérprete: Anderson Trautman Cardoso
Amadrinhador: Geraldo Trindade
Quando o sol caiu não solucei,
Enchi o peito com o ar que ainda tinha
E pensando estar pensando não pensei.
Os laços e esperanças ramalharam,
As notas da guitarra se calaram
Em nome de um destino que eu herdei.
Quando o sol caiu me desarmei...
Mirei sem desencanto o horizonte
Com olhos de uma história que eu não sei.
A Terra se partiu num grande abismo
E à beira desse abismo eu me abanquei.
O choro retumbou nos meus ouvidos
No tom amplificado de um trovão;
Paralisando vozes e sentidos,
Gelando e incendiando o coração.
A Lira, sem rituais, cortou os pulsos,
Lembrando de um amor que não provou;
E o poeta revisou seus absurdos
No sangue que a Lira derramou.
Quando o sol caiu sequei o mate
Num último resquício de prazer...
Num último recado à solidão.
Não importavam mais os alambrados...
Nem o silêncio dos desesperados,
Nem o futuro me escondendo a mão.
Não havia pandorgas pelo céu
Nem cruzavam canoas pelos rios...
As potradas cessaram seus tropéis,
Tantos dedos negando seus anéis,
Tantas caras sorvendo seus estios.
A minha faca estava bem afiada,
Minha bombacha estava bem passada
E a minha alma estava por estar;
O sol beijou com sua boca quente,
Um gosto doce salivou no beijo
E nesse instante me encontrei em paz.
Quando o sol caiu, eu tinha febre,
Fazendo contraponto ao seu calor...
A pele do silêncio ficou leve
Tatuada com brasão de estranha cor.
Quando o sol caiu, também caí,
No abismo que eu costeava sem sentir...
No fundo desse caos que eu não cavei.
Talvez um dia eu volte por ali...
Quando o sol caiu, eu renasci,
E ao lado do meu catre...
...despertei!
NO BOLICHO
Autor: Cristiano Ferreira
Intérprete: Jose Cláudio Pereira
Amadrinhador: Cláudio Silveira Filho
Era um bolicho,
num ranchito tosco, barreado,
no alto de um coxilhão...
pouco adiante da curva
que embicava no passo.
Recostada na fachada,
uma roda de carreta,
lembrança de um tempo
já "mui" distante.
Um pedaço de Rio Grande,
em cada cena vivida,
naquele palco da vida...
...com personagens errantes.
Sim!
Era um bolicho...
perdido do tempo
e... perdido de si.
No "más" era assim:
balcão e prateleiras
de madeira, já judiada;
um ovelheiro enrodilhado
- bem na porta;
um gato sobre um saco de batatas
- como em eterna ressolana;
um truco que - num canto - se apresilha;
a tropa que lerdarrona se avista...
e a chuva que... quando em vez...
se aprochega;
as novas do mascate
e... cruzando,
um potro em primeiro galope.
Pendurado na parede...
um calendário desbotado,
como trazendo estampadas
as imagens destes quadros
num retrato fiel da pampa.
E vem a tropa pela estrada...
- "Êra boi... Êra!...
Olha o passo boi... passo boi...
Êra boi!... Êraaaaa!...
Boiiiii!..."
O ponteiro ávido de adentrar ao bolicho...
e...um brazino
..."querendo" chegar antes dele!...
Culatreando...
mais três tropeiros e
a barra lobuna... da chuva.
Silhuetas basteriadas de estrada e tempo
...passam pelo bolicho.
Já emponchado, um se achega
para buscar os vícios
e mais um pedaço de charque.
Caso desate a chover,
enchendo o passo - que é traiçoeiro -
vão ter de esperar...
e o pouco que levam...
periga faltar.
Numa mesinha, um truco entre duplas,
dois peões da estância lindeira,
o capataz de outra
e o mascate que "primeriou" a chuva...
E carteiam lindo, alheios a tudo,
e... cantando versos:
"Mil coisas faço na lida
e também sou cantador,
o jogo é parte da vida:
boto o truco na tua flor!"
Ressabiado pelo laçasso no jogo...
o mascate se debruça no balcão
para prosear com o bolicheiro,
que dá uma bombeada
nas notícias do povo
escritas em páginas surradas
de um velho jornal.
-"É, seu Mascate,
desde que aprendi a
acolherar as letras e me informar,
que esses qüeras peleiam
lá nas Arábias!"
-"Pois é, meu amigo.
Pasme! É a mesma função
que muitos anos atrás eu li
e comentei com o compadre...
- se não me falta à memória -
...numa viagem de trem.
Saiba que além de brigarem entre si,
têm outros que metem o cavalo
e mais lenha na fogueira!...
...Daqui a pouco está peleando
a Terra inteira!..."
-"É, essas coisas da política,
vão descambando pra piorar,
onde o bandido... se aposenta
e quem paga é o povo,
que é o logrado também.
O descaso é que governa
e... a injustiça... passa bem!..."
Três pingos no corredor...
Dois tauras amadrinham
um num potro...
...lidando pro primeiro galope.
Se amontoa gente na porta...
-"Vale um liso, seu bolicheiro,
se o bicho corcovear?!"
-"Fico com o Fidêncio,
respeitado domador...
...nunca aporreou um cavalo,
estrivado na coragem e...
fé em Nosso Senhor!"
...Num galopão
...socadito,
cruzam os três e...
...a garoa.
...O bolicheiro... sorrindo,
...que o domador é seu freguês!...
Sim!
Era um bolicho...
perdido do tempo
e... perdido de si.
Era assim...
...num tempo e lugar...
que o destino...
...apartou de mim.
Uma casinha de vila,
tornou-se... todo o meu cenário...
Saudade daquele lugar
que o presente faz distante...
Saudade... que faz sorrir e sonhar,
lembrando...
de um pedaço de Rio Grande
...em cada cena vivida,
naquele palco da vida...
...com personagens errantes!...
Intérprete: Jose Cláudio Pereira
Amadrinhador: Cláudio Silveira Filho
Era um bolicho,
num ranchito tosco, barreado,
no alto de um coxilhão...
pouco adiante da curva
que embicava no passo.
Recostada na fachada,
uma roda de carreta,
lembrança de um tempo
já "mui" distante.
Um pedaço de Rio Grande,
em cada cena vivida,
naquele palco da vida...
...com personagens errantes.
Sim!
Era um bolicho...
perdido do tempo
e... perdido de si.
No "más" era assim:
balcão e prateleiras
de madeira, já judiada;
um ovelheiro enrodilhado
- bem na porta;
um gato sobre um saco de batatas
- como em eterna ressolana;
um truco que - num canto - se apresilha;
a tropa que lerdarrona se avista...
e a chuva que... quando em vez...
se aprochega;
as novas do mascate
e... cruzando,
um potro em primeiro galope.
Pendurado na parede...
um calendário desbotado,
como trazendo estampadas
as imagens destes quadros
num retrato fiel da pampa.
E vem a tropa pela estrada...
- "Êra boi... Êra!...
Olha o passo boi... passo boi...
Êra boi!... Êraaaaa!...
Boiiiii!..."
O ponteiro ávido de adentrar ao bolicho...
e...um brazino
..."querendo" chegar antes dele!...
Culatreando...
mais três tropeiros e
a barra lobuna... da chuva.
Silhuetas basteriadas de estrada e tempo
...passam pelo bolicho.
Já emponchado, um se achega
para buscar os vícios
e mais um pedaço de charque.
Caso desate a chover,
enchendo o passo - que é traiçoeiro -
vão ter de esperar...
e o pouco que levam...
periga faltar.
Numa mesinha, um truco entre duplas,
dois peões da estância lindeira,
o capataz de outra
e o mascate que "primeriou" a chuva...
E carteiam lindo, alheios a tudo,
e... cantando versos:
"Mil coisas faço na lida
e também sou cantador,
o jogo é parte da vida:
boto o truco na tua flor!"
Ressabiado pelo laçasso no jogo...
o mascate se debruça no balcão
para prosear com o bolicheiro,
que dá uma bombeada
nas notícias do povo
escritas em páginas surradas
de um velho jornal.
-"É, seu Mascate,
desde que aprendi a
acolherar as letras e me informar,
que esses qüeras peleiam
lá nas Arábias!"
-"Pois é, meu amigo.
Pasme! É a mesma função
que muitos anos atrás eu li
e comentei com o compadre...
- se não me falta à memória -
...numa viagem de trem.
Saiba que além de brigarem entre si,
têm outros que metem o cavalo
e mais lenha na fogueira!...
...Daqui a pouco está peleando
a Terra inteira!..."
-"É, essas coisas da política,
vão descambando pra piorar,
onde o bandido... se aposenta
e quem paga é o povo,
que é o logrado também.
O descaso é que governa
e... a injustiça... passa bem!..."
Três pingos no corredor...
Dois tauras amadrinham
um num potro...
...lidando pro primeiro galope.
Se amontoa gente na porta...
-"Vale um liso, seu bolicheiro,
se o bicho corcovear?!"
-"Fico com o Fidêncio,
respeitado domador...
...nunca aporreou um cavalo,
estrivado na coragem e...
fé em Nosso Senhor!"
...Num galopão
...socadito,
cruzam os três e...
...a garoa.
...O bolicheiro... sorrindo,
...que o domador é seu freguês!...
Sim!
Era um bolicho...
perdido do tempo
e... perdido de si.
Era assim...
...num tempo e lugar...
que o destino...
...apartou de mim.
Uma casinha de vila,
tornou-se... todo o meu cenário...
Saudade daquele lugar
que o presente faz distante...
Saudade... que faz sorrir e sonhar,
lembrando...
de um pedaço de Rio Grande
...em cada cena vivida,
naquele palco da vida...
...com personagens errantes!...
NAS ESTRELAS DAS ESPORAS
Autor: Colmar Pereira Duarte
Intérprete: Romeu Weber
Amadrinhador: Geraldo Trindade
Esse baio era maleva!
E o Quirino bem sabia.
Bulido,
Sem ser domado,
Fora ficando aporreado,
Passando de mão em mão.
O bicho que não se doma
Descobre a força que tem.
Nenhum – por mais caborteiro!–
Nasce com balda ou com manha.
O bagual que não apanha
Não teme nem desconfia;
Com manuscio e carinho
Se amansa mais facilmente
Que com golpe e judiaria.
Procure o jeito, parceiro
- “quando se ganha o tirão,
não há bagual pescoceiro!”
O segredo é ter paciência,
Pois, muito mais que o rigor,
É uma arma de valor
Pra vencer a resistência.
A vida ensina a razão,
Embora seja do agrado,
Ser bom não é obrigação;
Obrigação, é ser justo!
Toda injustiça revolta,
E a revolta tem um custo.
Quem tem as rédeas governa,
Mas é bom sempre lembrar
Que o bicho é mesmo que gente.
E até se comporta igual,
E toda força que tem,
E que pode usar pra o bem
Às vezes usa pra o mal.
Talvez por isso, esse baio
Aprendera a velhaquear,
E agora estava afamado
Por caborteiro e mesquinho.
Em seu lombo, sem basteira,
Não senta nem passarinho.
Quirino herdara, ao nascer,
Seu destino de ginete;
Porque ginete se nasce,
O mais, se pode aprender,
Entropilhava diplomas
Das “Criollas” que ganhara;
Bagé e Jesus Maria.
Osório e Montevidéu,
E aquele baita troféu
De ‘Campeão de Vacaria”.
Por certo já estava escrito
Nas estrelas das esporas
Que esse dia ia chegar.
E foi assim - campo a fora –
Que a vida juntou os dois.
Um por maula,
Outro por bueno;
Um - remédio,
Outro - veneno.
Numa porfia”garruda”,
Na qual não se tem ajuda,
Quem pode mais chora menos.
Dois corvos que voavam baixo
Se alçaram buscando altura,
E a calma dessa planura,
Na manhã ensolarada,
Foi bruscamente cortada
Pela silueta andulante
Do cavalo e do ginete,
Era a força da tormenta
Levando tudo por diante,
A corcovos e porrete.
À esperas e negaceio.
Não tinha pra quê nem quando!
Se a terra se abrisse ao meio
- sem se importar co’a desgraça –
Seguiram cotejando,
Chão a dentro, tempo a fora!
Não sei qual era o mais taura,
Não sei qual era o mais potro;
Mas nenhum venceu o outro,
Pois, num golpe derradeiro,
O baio, em plena corrida,
Corcoveando, se boleia.
E os dois se foram da vida!
Mas essa briga renhida
Nunca chegaria ao fim.
Acolherados, assim,
Os dois com a mesma sorte,
Morriam da mesma morte
Pra continuarem depois.
Se os maulas vão pra o inferno,
Se quem é bom vai pra o céu,
É mui difícil saber
Pra onde foram os dois...
Se o baio levou o Quirino
Pra ginetear no inferno;
Se o ginete levou o baio
Junto com ele
Pra o céu.
Intérprete: Romeu Weber
Amadrinhador: Geraldo Trindade
Esse baio era maleva!
E o Quirino bem sabia.
Bulido,
Sem ser domado,
Fora ficando aporreado,
Passando de mão em mão.
O bicho que não se doma
Descobre a força que tem.
Nenhum – por mais caborteiro!–
Nasce com balda ou com manha.
O bagual que não apanha
Não teme nem desconfia;
Com manuscio e carinho
Se amansa mais facilmente
Que com golpe e judiaria.
Procure o jeito, parceiro
- “quando se ganha o tirão,
não há bagual pescoceiro!”
O segredo é ter paciência,
Pois, muito mais que o rigor,
É uma arma de valor
Pra vencer a resistência.
A vida ensina a razão,
Embora seja do agrado,
Ser bom não é obrigação;
Obrigação, é ser justo!
Toda injustiça revolta,
E a revolta tem um custo.
Quem tem as rédeas governa,
Mas é bom sempre lembrar
Que o bicho é mesmo que gente.
E até se comporta igual,
E toda força que tem,
E que pode usar pra o bem
Às vezes usa pra o mal.
Talvez por isso, esse baio
Aprendera a velhaquear,
E agora estava afamado
Por caborteiro e mesquinho.
Em seu lombo, sem basteira,
Não senta nem passarinho.
Quirino herdara, ao nascer,
Seu destino de ginete;
Porque ginete se nasce,
O mais, se pode aprender,
Entropilhava diplomas
Das “Criollas” que ganhara;
Bagé e Jesus Maria.
Osório e Montevidéu,
E aquele baita troféu
De ‘Campeão de Vacaria”.
Por certo já estava escrito
Nas estrelas das esporas
Que esse dia ia chegar.
E foi assim - campo a fora –
Que a vida juntou os dois.
Um por maula,
Outro por bueno;
Um - remédio,
Outro - veneno.
Numa porfia”garruda”,
Na qual não se tem ajuda,
Quem pode mais chora menos.
Dois corvos que voavam baixo
Se alçaram buscando altura,
E a calma dessa planura,
Na manhã ensolarada,
Foi bruscamente cortada
Pela silueta andulante
Do cavalo e do ginete,
Era a força da tormenta
Levando tudo por diante,
A corcovos e porrete.
À esperas e negaceio.
Não tinha pra quê nem quando!
Se a terra se abrisse ao meio
- sem se importar co’a desgraça –
Seguiram cotejando,
Chão a dentro, tempo a fora!
Não sei qual era o mais taura,
Não sei qual era o mais potro;
Mas nenhum venceu o outro,
Pois, num golpe derradeiro,
O baio, em plena corrida,
Corcoveando, se boleia.
E os dois se foram da vida!
Mas essa briga renhida
Nunca chegaria ao fim.
Acolherados, assim,
Os dois com a mesma sorte,
Morriam da mesma morte
Pra continuarem depois.
Se os maulas vão pra o inferno,
Se quem é bom vai pra o céu,
É mui difícil saber
Pra onde foram os dois...
Se o baio levou o Quirino
Pra ginetear no inferno;
Se o ginete levou o baio
Junto com ele
Pra o céu.
MORTO... AGORA VIVO O PROSCRITO
Autor: Luis Lopes de Souza
Intérprete: Paulo Ricardo dos Santos
Amadrinhadores: Clovis Mendes - Violão
Eduardo Mendes - Serrote
Sem dor, lamento ou porque...
morreu por chegar a hora...
Agora na paz perene
de um sono bueno e profundo
o pobre andejo dormia
já sem ter magoas do mundo...
Livre...
Livre dos tombos da vida!
Livre das léguas dos anos
e amargas da existência...!
Tendo apenas por parceiro
um tostado malacara
viveu de estância em estância
sem ter raiz nem querência...
Por ter fama de errante
com calúnia maldizente
era sempre repudiado...
Restava encurtar distância
sem estar indo nem vindo
mal visto, vago e sem rumo...
... muitas vezes ranchos fartos
lhe negaram um fiambre...
... judiado pelos caminhos
acostumou a sofrer,
mas no vazio de ser nada
quantas vezes indagou
qual a razão de viver...?!
Não lhe alcançavam um mate...
não lhe cediam um pouso...
não lhe justavam pra lida...
não lhe estendiam a mão
na chagada ou na partida,
sem permisso pra falar
nem pra implorar um sorriso...
E era bueno... era bueno sim...
quase sempre famulento
nuca comeu do alheio...
- Poncho poido de invernias...
- Bombacha a muito rota...
- Chapéu furado na copa...
- Arreios já remendados...
Desprovido, miserando
necessitado de tudo...
Arrastando a realidade
de sua fama de errante.
Nunca teve sonhos...
por fracassado e proscrito
não aprendeu a sonhar.
Amores por certo teve
mas perdeu-se por um só
e mesmo sendo vaqueano
nunca mais achou o rumo...
E os erros imcompreendidos?
E o ferro em brasa no couro
por inocentes motivos...?
E o rubro sangue estanque
esvaído nos caminhos?!
E as tormentas interiores,
com estocadas de espinhos?!
Por isso agora livre...!
Sem mendigar um aceno...
Sem a changa pela bóia...
Sem andar só e sem razão...
Ninguém chorou pelo tal,
se o pobre era “mui solo”
quem choraria por ele...?
O tostado malacara
ficou por perto das casas
depois por perto da cruz...
Relinchando vez por outra
- Único choro talvez...!
Intérprete: Paulo Ricardo dos Santos
Amadrinhadores: Clovis Mendes - Violão
Eduardo Mendes - Serrote
Sem dor, lamento ou porque...
morreu por chegar a hora...
Agora na paz perene
de um sono bueno e profundo
o pobre andejo dormia
já sem ter magoas do mundo...
Livre...
Livre dos tombos da vida!
Livre das léguas dos anos
e amargas da existência...!
Tendo apenas por parceiro
um tostado malacara
viveu de estância em estância
sem ter raiz nem querência...
Por ter fama de errante
com calúnia maldizente
era sempre repudiado...
Restava encurtar distância
sem estar indo nem vindo
mal visto, vago e sem rumo...
... muitas vezes ranchos fartos
lhe negaram um fiambre...
... judiado pelos caminhos
acostumou a sofrer,
mas no vazio de ser nada
quantas vezes indagou
qual a razão de viver...?!
Não lhe alcançavam um mate...
não lhe cediam um pouso...
não lhe justavam pra lida...
não lhe estendiam a mão
na chagada ou na partida,
sem permisso pra falar
nem pra implorar um sorriso...
E era bueno... era bueno sim...
quase sempre famulento
nuca comeu do alheio...
- Poncho poido de invernias...
- Bombacha a muito rota...
- Chapéu furado na copa...
- Arreios já remendados...
Desprovido, miserando
necessitado de tudo...
Arrastando a realidade
de sua fama de errante.
Nunca teve sonhos...
por fracassado e proscrito
não aprendeu a sonhar.
Amores por certo teve
mas perdeu-se por um só
e mesmo sendo vaqueano
nunca mais achou o rumo...
E os erros imcompreendidos?
E o ferro em brasa no couro
por inocentes motivos...?
E o rubro sangue estanque
esvaído nos caminhos?!
E as tormentas interiores,
com estocadas de espinhos?!
Por isso agora livre...!
Sem mendigar um aceno...
Sem a changa pela bóia...
Sem andar só e sem razão...
Ninguém chorou pelo tal,
se o pobre era “mui solo”
quem choraria por ele...?
O tostado malacara
ficou por perto das casas
depois por perto da cruz...
Relinchando vez por outra
- Único choro talvez...!
DO MEU GALPÃO
Autor: Alberto Sales
Intérprete: Jesus dos Santos
Amadrinhador: Jesus Oliveira
De guri fui galponeiro
Manuseava no galpão
Loro, rédea e travessão,
Lonqueava o dia inteiro
Na função deste entreveiro,
-De mangueira e de lombos-
Asas ligeiras de pombos
E por gostar de estrada,
Horizonte na mirada
Sem nunca temer os tombos.
Olhar de águia matreira
E grito de quero-quero,
A desgraça não espero
Nem repouso em tronqueira,
Espero o chiar da chaleira
E cevo um chimarrão,
Aperto bem com a mão
Puxo um cepo na entrada,
Onde descansa a indiada
Da bruta lida de peão.
Anos...que o tempo ergueu,
Rumino as minhas penas
Em rodas, prosas amenas,
Dor no peito me abateu,
Saudade permaneceu
Com recuerdos ancestrais,
Faço parte dos demais
Que há muitos esqueceram,
Moirões não apodreceram,
Na querência dos meus pais.
Numa folga domingueira
Pra negaciar as morenas,
Bombeei as longas melenas
Com olhos de fazendeira,
Jeito de prenda trigueira
Com imensidão no olhar,
Vi sonhos seus no pensar,
Todo homem entonado
Se encontra assim lado a lado
No jeito meigo... do par.
Uma luz que se acendeu
Um cepo a mais no galpão,
Água no fogo-de-chão,
Regalos que a vida deu
A origem permaneceu,
De campo, suor e lida
Com a prenda mais querida
Reparti o trigo do pão,
Completou meu coração
Esta flor, que foi colhida.
A ela escrevi poesia,
Da noite do rio, do céu.
Suave como fosse um véu,
Nas tardes calmas do dia
Meus pensamentos um guia
Com saudade do afago,
Lembranças que hoje trago
Da minha morena flor,
Trouxe carinho e amor
Pro peito do índio vago.
Deus no céu dependurou
Uma estrela, a mais divina,
A maior que ilumína
O rancho de um pelo duro,
Que num prego do futuro,
No galpão dependurado
Um retrato do passado,
Tua imagem na moldura
Mulher de grande bravura,
Ao encontrar-se ao meu lado.
Na cuia, erva lavada,
Aguardo um raio de luz,
- Daqueles, que me conduz
Pro lado da minha amada,
Vou pra última morada;
Abra as portas meu “amigo”
Pra este mouro antigo;
-Peço ao “Senhor do céu”
Que pra ti, tiro o chapéu,
Pra matear.... ai contigo.
Intérprete: Jesus dos Santos
Amadrinhador: Jesus Oliveira
De guri fui galponeiro
Manuseava no galpão
Loro, rédea e travessão,
Lonqueava o dia inteiro
Na função deste entreveiro,
-De mangueira e de lombos-
Asas ligeiras de pombos
E por gostar de estrada,
Horizonte na mirada
Sem nunca temer os tombos.
Olhar de águia matreira
E grito de quero-quero,
A desgraça não espero
Nem repouso em tronqueira,
Espero o chiar da chaleira
E cevo um chimarrão,
Aperto bem com a mão
Puxo um cepo na entrada,
Onde descansa a indiada
Da bruta lida de peão.
Anos...que o tempo ergueu,
Rumino as minhas penas
Em rodas, prosas amenas,
Dor no peito me abateu,
Saudade permaneceu
Com recuerdos ancestrais,
Faço parte dos demais
Que há muitos esqueceram,
Moirões não apodreceram,
Na querência dos meus pais.
Numa folga domingueira
Pra negaciar as morenas,
Bombeei as longas melenas
Com olhos de fazendeira,
Jeito de prenda trigueira
Com imensidão no olhar,
Vi sonhos seus no pensar,
Todo homem entonado
Se encontra assim lado a lado
No jeito meigo... do par.
Uma luz que se acendeu
Um cepo a mais no galpão,
Água no fogo-de-chão,
Regalos que a vida deu
A origem permaneceu,
De campo, suor e lida
Com a prenda mais querida
Reparti o trigo do pão,
Completou meu coração
Esta flor, que foi colhida.
A ela escrevi poesia,
Da noite do rio, do céu.
Suave como fosse um véu,
Nas tardes calmas do dia
Meus pensamentos um guia
Com saudade do afago,
Lembranças que hoje trago
Da minha morena flor,
Trouxe carinho e amor
Pro peito do índio vago.
Deus no céu dependurou
Uma estrela, a mais divina,
A maior que ilumína
O rancho de um pelo duro,
Que num prego do futuro,
No galpão dependurado
Um retrato do passado,
Tua imagem na moldura
Mulher de grande bravura,
Ao encontrar-se ao meu lado.
Na cuia, erva lavada,
Aguardo um raio de luz,
- Daqueles, que me conduz
Pro lado da minha amada,
Vou pra última morada;
Abra as portas meu “amigo”
Pra este mouro antigo;
-Peço ao “Senhor do céu”
Que pra ti, tiro o chapéu,
Pra matear.... ai contigo.
COMPERMISO
Autor: João de Freitas
intérprete: Roberto Lopes
Amadrinhadores: Xiruzinho e Luis dos Santos
Permiso, caro patrício
Pra soltar meu canto largo
Com oficio do meu cargo
Neste começo de noite
Num aspecto de açoite
Quando Rio Grande se ermana
Pra confraria dos versos
Pra cultura ter sucessos
Da guapa vida aragana.
Neste galpão campechano
De pau-a-pique barreado
O pinho faz um costado
Eu, patacoero, declamo
A cultura do pampa eu chamo
Quero contar as façanhas
Do índio xucro do pago
Que se criou meio vago
Cruzando nossas campanhas.
Este gaúcho que falo
E o mesmo venta rasgada
Que ao toque de clarinada
No alvorecer do Rio Grande
E sem que ninguém mande
Montado, e bem a cavalo
Em prol da pampa gaúcha
De espada, lança e garrucha
Sinchando no mesmo embalo.
Foi ele sim, o mangrulho
O sentinela avançado
Rude, guasca abaguala
Que não conheceu maneia
Mas pronto a qualquer peleia
Sem nunca dobrar o penacho
No velho estilo robusto
Por que não nasceu de susto
E nem foi criado guacho.
Sempre esteve na vanguarda
Como ponteiro de tropa
Chapéu, batido na copa
Pachaola e desafiador
Homem puro e peleador
Olhos de tigre em peleias
Que calça o pe e não recua
Pois traz o sangue charrua
Galopenado pelas veias.
É dele que a historia fala
Há mais de trezentos anos
Os seus feitos sobre-humanos
Aonde a coragem avança
Escrito a ponta de lança
Em tantas revoluções
Lutou sem pedir clemência
Pra defender a querência
Da gana de outras nações.
Conserva o mesmo estoicismo
Que recebeu por regalo
Entre escolta de cavalo
Com chuva, vento e frio
Banhado, mato e rio
Peleando por vitória
Com o suor sobre a face
Pra que o Rio Grande entrasse
No ciclo da nossa historia.
Então meu caro patrício
O meu alerta já fiz
Do sul do nosso país
E dos homens peleadores
O históricos de valores
De adaga e lança na mão
De camisa aberta ao peito
Pra impor o respeito
Em defesa do nosso chão.
Sim senhor muito obrigado
Por me ouvir um momento
Expressei o sentimento
Daquilo que nos legaram
E que também entregaram
O que o gaúcho deseja
Dentro da própria experiência
Que o passado da querência
Tem vida de alma andeja!
intérprete: Roberto Lopes
Amadrinhadores: Xiruzinho e Luis dos Santos
Permiso, caro patrício
Pra soltar meu canto largo
Com oficio do meu cargo
Neste começo de noite
Num aspecto de açoite
Quando Rio Grande se ermana
Pra confraria dos versos
Pra cultura ter sucessos
Da guapa vida aragana.
Neste galpão campechano
De pau-a-pique barreado
O pinho faz um costado
Eu, patacoero, declamo
A cultura do pampa eu chamo
Quero contar as façanhas
Do índio xucro do pago
Que se criou meio vago
Cruzando nossas campanhas.
Este gaúcho que falo
E o mesmo venta rasgada
Que ao toque de clarinada
No alvorecer do Rio Grande
E sem que ninguém mande
Montado, e bem a cavalo
Em prol da pampa gaúcha
De espada, lança e garrucha
Sinchando no mesmo embalo.
Foi ele sim, o mangrulho
O sentinela avançado
Rude, guasca abaguala
Que não conheceu maneia
Mas pronto a qualquer peleia
Sem nunca dobrar o penacho
No velho estilo robusto
Por que não nasceu de susto
E nem foi criado guacho.
Sempre esteve na vanguarda
Como ponteiro de tropa
Chapéu, batido na copa
Pachaola e desafiador
Homem puro e peleador
Olhos de tigre em peleias
Que calça o pe e não recua
Pois traz o sangue charrua
Galopenado pelas veias.
É dele que a historia fala
Há mais de trezentos anos
Os seus feitos sobre-humanos
Aonde a coragem avança
Escrito a ponta de lança
Em tantas revoluções
Lutou sem pedir clemência
Pra defender a querência
Da gana de outras nações.
Conserva o mesmo estoicismo
Que recebeu por regalo
Entre escolta de cavalo
Com chuva, vento e frio
Banhado, mato e rio
Peleando por vitória
Com o suor sobre a face
Pra que o Rio Grande entrasse
No ciclo da nossa historia.
Então meu caro patrício
O meu alerta já fiz
Do sul do nosso país
E dos homens peleadores
O históricos de valores
De adaga e lança na mão
De camisa aberta ao peito
Pra impor o respeito
Em defesa do nosso chão.
Sim senhor muito obrigado
Por me ouvir um momento
Expressei o sentimento
Daquilo que nos legaram
E que também entregaram
O que o gaúcho deseja
Dentro da própria experiência
Que o passado da querência
Tem vida de alma andeja!
VOLTANDO À QUERÊNCIA
Autor: Roberto Mara
Intérprete: Valdemar Camargo
Amadrinhador: Alcione Padilha
Em nome do pai... do filho...
Buenos dias, solidão...
Quem volta pra querência,
Deve de ter jeito e tenência,
Pra não magoar o passado,
Que um dia, “de abandonada”,
Ficou solito, na espera,
Na sombra desta tapera
Com mais fantasmas que gente....!
- Oh de casa...
- Para quem?
Se nem cachorro há por perto...!
Se até parece que “antonces”
Também partiram daqui.
Ah, solidão-guarani...,
A dos que foram mermando,
Perseguidos e peleando
Contra invasores “estranja”...
Oh, gente...
Ninguém aqui?
Pudera...!
Muita légua... lá no tempo...
Muitas léguas de horizontes,
Quando os verdes e os aprontes
Prometiam vidas novas.
Quando mocito, co’as trovas
Que trazia na coragem
De juventude sem freio...
Quando crei ser patrão
Das minhas forças e anseios...
Quando cinchei meu potrito
Cheio de fogo nas patas,
Rumo aos “sem rumos” das matas
Dos boitatás... e sem amadrinhador,
Fui me embrenhando nas horas
Das madrugadas cantoras...
De catres sujos de nadas,
De impossíveis namoradas...
De “mundos” sem amanhãs...
Quando achando
Que em mim mesmo
Nasciam tempos a esmo,
Qual touritos de aluguel...
Quando beijos a granel
Sangravam carne e desejos,
Namoricando lampejos
De estrelinhas de papel...
Quando cheio de arrogâncias
Sonhei ser dono de estâncias
Com verdes, rios e mel...
Quando “ela” chorando disse:
- Não vai...
É pura crendice
Com ecos de “sapucaí”
Quando a velhita...
- Oh, mãe...
Deus a tenha minha santa,
Também pedia:
Mio figlio, non vá...!
Mio figlio, nón vá...,
Cheio de empáfia dos novos,
Sai escarceando pros povos
Sem medir cancha ou rival...
Até que um dia... ao final
Da cancha reta dos anos,
Os matungos desenganos
Foram quebrando o piazito
Cansado, velho, sem grito
Desbuçalado, flaquito,
Já nem mateio solito,
Co’as ancas cheias de pó;
Sem voz, sem eco, só...
No meio da imensidão,
Frio, sem fogo de chão...
Madrugada sem galpão;
Tropeando sombras, alpedo
Neste reponte do medo,
De remorsos e esqueletos,
De sonhos analfabetos
Doendo no “eme” da mão...
Oh, de casa, meu passado
Com licença, solidão...
Alguém convida pra um mate
Este andarengo sem chão?
É triste montar ausência
Depois de um tempo “tempão”...
Meu retorno é penitência...
Sorrisos que abandonei...
Prantos que não ouvi.
Oh, meus sonhos... me perdoem...
Com licença minha querência...
Perdão... perdão... voltei.
Intérprete: Valdemar Camargo
Amadrinhador: Alcione Padilha
Em nome do pai... do filho...
Buenos dias, solidão...
Quem volta pra querência,
Deve de ter jeito e tenência,
Pra não magoar o passado,
Que um dia, “de abandonada”,
Ficou solito, na espera,
Na sombra desta tapera
Com mais fantasmas que gente....!
- Oh de casa...
- Para quem?
Se nem cachorro há por perto...!
Se até parece que “antonces”
Também partiram daqui.
Ah, solidão-guarani...,
A dos que foram mermando,
Perseguidos e peleando
Contra invasores “estranja”...
Oh, gente...
Ninguém aqui?
Pudera...!
Muita légua... lá no tempo...
Muitas léguas de horizontes,
Quando os verdes e os aprontes
Prometiam vidas novas.
Quando mocito, co’as trovas
Que trazia na coragem
De juventude sem freio...
Quando crei ser patrão
Das minhas forças e anseios...
Quando cinchei meu potrito
Cheio de fogo nas patas,
Rumo aos “sem rumos” das matas
Dos boitatás... e sem amadrinhador,
Fui me embrenhando nas horas
Das madrugadas cantoras...
De catres sujos de nadas,
De impossíveis namoradas...
De “mundos” sem amanhãs...
Quando achando
Que em mim mesmo
Nasciam tempos a esmo,
Qual touritos de aluguel...
Quando beijos a granel
Sangravam carne e desejos,
Namoricando lampejos
De estrelinhas de papel...
Quando cheio de arrogâncias
Sonhei ser dono de estâncias
Com verdes, rios e mel...
Quando “ela” chorando disse:
- Não vai...
É pura crendice
Com ecos de “sapucaí”
Quando a velhita...
- Oh, mãe...
Deus a tenha minha santa,
Também pedia:
Mio figlio, non vá...!
Mio figlio, nón vá...,
Cheio de empáfia dos novos,
Sai escarceando pros povos
Sem medir cancha ou rival...
Até que um dia... ao final
Da cancha reta dos anos,
Os matungos desenganos
Foram quebrando o piazito
Cansado, velho, sem grito
Desbuçalado, flaquito,
Já nem mateio solito,
Co’as ancas cheias de pó;
Sem voz, sem eco, só...
No meio da imensidão,
Frio, sem fogo de chão...
Madrugada sem galpão;
Tropeando sombras, alpedo
Neste reponte do medo,
De remorsos e esqueletos,
De sonhos analfabetos
Doendo no “eme” da mão...
Oh, de casa, meu passado
Com licença, solidão...
Alguém convida pra um mate
Este andarengo sem chão?
É triste montar ausência
Depois de um tempo “tempão”...
Meu retorno é penitência...
Sorrisos que abandonei...
Prantos que não ouvi.
Oh, meus sonhos... me perdoem...
Com licença minha querência...
Perdão... perdão... voltei.
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