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SENTINELA AO SUL DO MUNDO

Sem assombros dos Açores
para os açoites do sul
mudança, mudando a sina.
Um punhado de sementes
um mar de pastos nos olhos,
promessas, sonhos, visões.
Inconstância de horizonte,
divisória em movimento
sob cruzadas nefastas,
entrechoques fronteiriços
vilania predatória
com bandeiras de Castela.

A carta de Silva Paes
faz ver ao luso poder,
imperioso protejer-se,
Colônia do Sacramento
que venha gente de Açores
gente sem eira nem beira
se não der pra outra coisa
de mais ou melhor valia
serão bucha de canhão.
Urge El Rei senhor dos mares
dos ventos, velas e velos
defender o sul do mundo.

“Ainda não fui ao Brasil
Já me chamam brasileiro
que dirão quando eu voltar
e traga muito dinheiro.”
Trouxera esse canto antigo
lonjura, tempo , distância
caminhando contra os medos
peregrinando visões
José de greis e de grãos
já fora barro e madeira,
agora Manuel José,
engenho, roça ,rosário.

Andar,plantar e colher
caminhante desde sempre
fora assim ,seria assim
encontros e desencontros
caminhos e descaminhos
nas pegadas de José.
Depois de andanças e andados
navios,mares,céus e campos,
plantado na pampa larga
caravela sobre pastos,
um rancho sossobra ao vento
bem ao sul do sul do mundo.

Manuel José Silveira
semeou-se no Mundo Novo,
silveira, silva, silvando
silvo de barcos ao longe
silêncios de cerro grande
sóis de espigas nas lavouras,
tafona, tambeiros, tambo
trovejões de boca larga
lanhaços de espada e lança
pelos confins da memória,
tejo, tava, truco e trago
para o ócio dos domingos.

Princípios, valor, palavra
homem de nome e bandeira,
calosas mãos de trabalho
corpo rijo, cerne puro
forjado a golpes de arado.
Sob as luzes do Cruzeiro
terços, cantos ,ladainhas
Divino, Reis, Cavalhadas,
a terra mãe dadivosa
gesta covas e canteiros
a vida floresce filhos
o tempo floresce vida.

Acordes do velho mundo
no canto de um tempo novo,
as levas imigrantinas
assomaram nas varandas,
semeando sonho e semente
abrindo trilhas e vergas.
Um mate cevado à gosto
no rancho, posto avançado
sob o sinete Del Rei
e a proteção do Divino
Manuel José Silveira
sentinela ao sul do mundo.

Cidade: São Pedro do Sul
Autor: Moisés Silveira de Menezes
Intérprete: Érico Bastos
Amadrinhador: Violão - Marcos Morais

PAJADA PARA INDIARA

Índia da pele morena
bronzeada de sol e lua,
tens a beleza chirua
que encanta, mas envenena...
A tua boca pequena,
que de sorrisos se cora
roubando a cor das amoras,
é feita de um doce pomo
que se divide em dois gomos
amadurados de aurora.

Indiazinha guarani
que bebe luar nas águas
onde a Dalva se deságua
em luzeiros de rubi,
beleza igual nunca vi
luzindo no rosto nu,
ninguém possui, que nem tu,
a pele cor de porongo
nem tem sob os cílios longos
os olhos de guabiju.

Ah, sublime criatura
só quem vê como eu te olho
se embebeda pelos olhos
frente a tanta formosura,
fica tonto de ternura
no momento em que te mire
pois ao rir tu adquires,
nas faces cor de maçã,
esse brilho de manhã
que se enfeita de arco-íres.

Indiazinha. teu encanto
não tem verso que relate,
és uma obra de arte
que não cabe em nenhum canto,
daí o meu acalanto
qual gorjeio da manhã
timbrado de doce afã
em singela oferenda
pra um misto de índia e prenda
obra prima de Tupã.

Só eu sei quanto quisera
descrever a tua a graça
de céu pintado de garças
nas tardes de primavera,
ou traduzir as esperas
dos gerânios nas varandas
por teus passos em ciranda
quando em música deslizas
sobre as pedras onde pisas
pelas ruas onde andas.

O belo fica suspenso
na solidão mais intensa
quando deixas tua ausência
soluçando no silêncio,
o céu estende seus lenços
pra tarde triste chorar
e, da fronteira até o mar,
já de repente anoitece
porque o dia adormece
sem a luz do teu olhar.

Mas se voltas de repente
ah, pra quem te reencontre,
amanhece em plena noite
uma aurora reluzente.
Até Deus fica contente
porque a paz é tua irmã
e pra mostrar que é teu fã,
do jardim do paraíso,
pinta a luz do teu sorriso
na estrelinha da manhã.

Casualidade não é...
- tudo que digo comprovo -
és filha dos Sete Povos
essa querência da fé.
Tens o sangue de Sepé
na descendência que expões
estampada nas feições
de modo que quem te fita
vê na menina bonita
um querubim das Missões.

Menina, doce menina,
possuis nos olhos mestiços
esse sublime feitiço
capaz de mudar a sina
de quem guarda nas retinas
a névoa dum mundo gris,
mas descobre outro matiz
refletido em altivez
pois quem te vê uma vez
já sabe o que é ser feliz.

Menina, bendita seja
a tua boca mimosa,
duas pétalas de rosa
perfumadas de cereja.
Quando falas, tu versejas
florescendo bem-me-quer...
Não minto, se te de disser
que quem te olha deduz
que és um anjo de luz
disfarçado de mulher.

Teu fascínio deixa presa
a visão de quem te olha,
que de luz se desconsola
e entontece de beleza.
Tens um tom de realeza
que no gesto se declara
e que a gente bem repara
na silhueta, quando chegas...
um perfil de deusa grega
com feições de índia rara.

Por tudo quanto fascinas
e o céu que insinuas...
teu olhar tem duas luas
reluzindo nas retinas.
Quando olhas iluminas
com belezas ancestrais
e por isso, e muito mais
que os olhos se encantam:
és a musa por quem cantam
os sinos das catedrais!

Cidade: Capão da Canoa
Autor: Vaine Darde
Intérprete: Romeu Weber
Amadrinhador: Violão

NA LIBERDADE DO VERSO

Senhores, peço licença, que a inspiração me concede,
sei que um gaúcho se mede mais por atos que palavras,
mas, por ser livre e sem amarras, seja aqui ou noutra parte,
meu compromisso é com a arte, e a liberdade é meu guia,
pois, prá falar em poesia, me sinto como um “Baluarte”.

Meu verso vem das entranhas desta terra colorada,
cruza várzeas e canhadas e pega o rumo das sangas,
depois se aquieta, se amansa, sem nunca perder o entono
e, por ser livre e não ter dono, não pede vaza ou permisso
e talvez, seja por isso que mostra tudo o que somos.

Meu verso não tem fronteiras, nem limites, nem divisas,
é a terra quando indivisa, sem cercas nem aramados,
é a liberdade dos pagos na imensidão desta escampa,
é uma voz que se levanta, como se fosse a estrutura,
sustentando uma cultura que tem raízes na pampa.

Meu verso não tem idiomas, tem história, tem relatos,
Pois um gaúcho de fato, “es gaucho” sul-ameríndio,
Meio branco, meio índio, meio negro e castelhano,
Espanhol ou Lusitano não se prende a dicionários,
Nem se amarra a literários, pois todos somos “hermanos”.

Meu verso é como o amor, quando puro e verdadeiro,
pois se entrega por inteiro a quem ama de verdade,
tem sentimento, tem saudade, tem ternura e emoção,
tem candura, tem paixão, tem carinho e alegria,
e se transforma em poesia dando alento ao coração.

Meu verso também é triste, fala de dor e de lamúrias,
de tristezas e penúrias, de amores mal resolvidos,
de romances proibidos e paixões indefinidas,
suas dores e feridas de saudades mal domadas,
com cicatrizes lavradas dos esporaços da vida.

Meu verso carrega o timbre de uma guitarra campeira,
numa ronda galponeira se extravasando em milonga,
cada corda que ressonga se transforma em nostalgia,
cada nota ou melodia que brota desse instrumento
aflora, como um lamento, e toma forma de poesia.

Meus versos cheiram a campo, perfumado a maçanilha,
têm rimas cheirando a encilha e a suor da cavalhada,
cheiram `a terra molhada e a campo recém queimado,
têm sabor de mate amargo e aroma de figueirilha
plantada numa coxilha, qual flora xucra do pago.

Meu verso é o cantar dos galos acordando as madrugadas,
reculutando a peonada prá empeçar a lida bruta.
Meu verso carrega a luta de um potro contra um torena,
e entre mango e nazarena, entre bufos e guascaços,
meu verso é como um laçasso, deixando manso, o ventena.

Meu verso é o grito perdido do tropeiro nas estradas,
é o estouro das manadas cruzando sangas e grotas,
meu verso é o berro das tropas num “era-boi”, tão sentido,
meu verso é como o silvido de um “sapucay” bem gaúcho,
como agüentando o repuxo de um tempo nunca esquecido.

Meu verso é o puro atavismo do sentimento charrua,
cavalgando, de alma nua, pelas planuras do pampa,
demonstrando pela estampa, com valentia e hombridade,
escramunçando a maldade, como um centauro guerreiro,
provando, pra o mundo inteiro o valor da liberdade.

Por isso meu verso é livre, por ser um pouco de tudo,
por isso é que não me iludo, pois sei que ele não é meu.
O verso é de quem o leu, quem o quis e o verseja,
de quem o vê com clareza, com carinho e emoção,
pois, se tocou seu coração, “ele” é livre, com certeza!

Cidade: Caxias do SulAutor: Érico Rodrigo PadilhaIntérprete: Paula Daniele StringuiAmadrinhador: Violão - Alcione Cleber Padilha

LIÇÕES DE CAMPO E ESTRADA

Lembra ainda...
...Como se cada passagem de vida e lida de campo
Fosse um entalhe profundo
Riscado no cerne d’alma...

Tropeadas... paragens nos corredores,
Os buenas e ô de casa!
Pelos ranchos das estâncias
E bolichos beira estrada...
Cada naco de momento se fez lição e verdade,
Caminho, rumo e sentido,
Sem preço, mas com valores contidos
Pra formar a identidade...

...Assim aprendeu ao tranco
E ao tranco vive a aprender...
‘...Alma centaura por certo,
Pela linguagem e a estampa,
Um rancho no campo aberto
Quinchado por céu de pampa!...’

Tão simples um “perro” amigo,
Que a tempos lhe acompanha,
Refestela, chora em manha
Quando o dono se aprochega...
Quando atiçado, sai que é um raio!...
Vai na ponta e vem de volta,
Onde se vai...vai de escolta,
Costeando a sombra de um baio...

...E assim aprendeu com o cusco
Quanto vale uma amizade,
Como é lindo a lealdade
E o campechano viver...
Veio então a compreender
Que amigo fiel não perdemos,
Por ser chama que acendemos
Com brasas do bem-querer...

...Um laço que se desata
E se faz arma nas mãos...
Braças, rodilhas e armada
E um vôo certo no espaço...
Reluz a argola polida
E a trança toda estendida
Se faz extensão de um braço...

...O flete vira de ponta,
Pois assim foi o arrocino,
Mas entre bichos e o destino,
De camperear pelo ermo,
Existem as palavras e o termo,
“...mais ouvir...menos falar...”

... Bombeando pra’o cinchador,
(A resistência do couro)
Reforçado prende o touro
Peleando por liberdade!...
...E assim tal qual a presilha
Fez também por sua lavra
E aprendeu a manter a palavra
Dizendo sempre a verdade!...

...As tropas que se passaram,
Por corredores e estradas,
São marcas eternizadas
de outras lições que ficaram...
Idiomas, de rondas e de repontes,
Geografia de horizontes,
nas léguas já recruzadas...
...História em fogões tropeiros,
Contas nas tarcas riscadas
E a sentença que atropela:
Que “as casas”, é um luxo que se concebe,
Mas seu valor se percebe
É quando se está longe dela!...
O flete manso da encilha,
Já foi potro e redomão...
E ao lhe ensinar a lição
Aprendeu mais na verdade,
Se destapam realidades
Bem menos irracionais,
Que até mesmo os animais
Dão valor a liberdade!

...Mal comparando a um filho,
Que corre, brinca e retoça,
Depois o tempo lhe “amoça”
E termina o “mundo potrilho”
Por isso a doma é um auxílio
E qual a um ventena se enleia,
A autoridade é a maneia,
Que é pra um e para o outro,
Pois tal um filho, é um potro:
Se não domar, se aporreia!...

Costeando cercas antigas,
(Arames cortando o espaço)
Tal como nervos de aço
Que o tempo afloxou sem pena...
Era tão firme e tão buena
Que parou tropa e manada;
E hoje tramas carunchadas
E moirões já carcumidos;
Apontam mais que sentido
No rumo do seu viver:
Por firme que possa ser
Ninguém nasceu para eterno
E assim aprendeu com os cernos,
Que ao tempo de cada um,
Todos vão envelhecer...

...Os valores morais,
A honra e a ombridade,
O respeito e a lealdade,
Não se retém aos diplomas...
O pampa, a tropa e a doma,
Estradas, galpões, mangueiras,
São faculdades campeiras
Aplicadas pela lida
E se fazem lições pra vida
Pra se guardar por inteiras...

...Entendeu com a vivência,
Que os olhos podem falar...
Num pensar com mais tenência
A própria voz do silêncio
É a luz contida no olhar!...

...Aprendeu, pelos caminhos
Que a aguada, por mais pequena,
Guarda um pedaço de céu...
Notou que bajo o chapéu,
Estamos sempre a aprender,
E o campechano viver
Nos prova sermos só a poeira
Da imagem verdadeira
Do que pretendemos ser!...

...E assim aprendeu ao tranco
E ao tranco segue a aprender...

‘...Alma centaura por certo,
Pela linguagem e a estampa
Um rancho no campo aberto
Quinchado por céu de pampa...’

Cidade: Santana do Livramento
Autores: Cláudio Silveira e Cristiano Ferreira Pereira
Intérprete: Francisco Azambuja
Amadrinhador: Violão - Cláudio Silveira

LAPIDÁRIO

Faz doze luas que fostes
E eu ainda lembro tua voz,
Quando chamavas por nós,
Quando corrias faceiro
Pelo terreiro e jardim,
Jardim das flores mais belas,
Último adorno que fiz
Quando nos deixaste assim.

Recordo o dia bonito
Que enfeitaste nosso mundo,
Mundo, que saibas guri,
Foi preparado pra ti,
Pois, quando te vi, nascente,
Até mesmo o sol poente
Ofuscou-se ao meu olhar.
Olhar que hoje, por ti,
Vive a chorar...

Queríamos ter te dito
Bem mais coisas que dissemos.
Queríamos que ouvisses,
Hoje, o que não te falamos,
O que pensamos,
E, por erro,
Até hoje
Não te falamos:

Se o tempo voltasse,
Seria eu bem mais branda
Com tuas artes de piá.
Quando nas horas de sesta
Judiavas da criação.
Não, não lhe daria castigo!
Castigo levo comigo
Ao ver tardes de sol quente
Sem chocas deixando o ninho,
Sem gritos de quero-quero,
Sem roubo de pão novinho.

Se o tempo voltasse,
Seria eu mais paciente
Com as conversas e causos.
Encostaria meu mate,
Te acolheria em meu catre
Sem reclamar de cansaço.
Te daria mais abraços
Do que te dei...

Se o tempo voltasse,
Eu não mais daria importância
Pras manchas no meu vestido,
Pra aquele queijo escondido
Pelo qual te castiguei.
Falaria a ti mais do que falei,
Riria mais do que ri,
Rezaria mais do que rezei,
Por ti...

Eu manguearia o petiço
Mais vezes do que mangueei,
Sem reclamar de cansaço.
Manguearia a qualquer hora,
Da sesta, antes do almoço,
Exausto ao chegar da lida.
Ah! Que dor adentra em meu peito
Ao olhar os teus bastinhos
Intocáveis pós tua ida.

Tuas mãos e teus pezinhos,
Teu jeito meigo de rir,
Que, ao partir,
Deixaste no meu olhar.
E me deixaste a penar
Como se a luz da vida apagasse.
Ah! Como eu queria
Que tu, como o sol, voltasse!
Voltasse a brilhar!

Jamais pensei que uma dor
Fosse mais forte que eu!

Sempre julguei que o amor
Fosse um capricho de Deus!

Espero que me compreendas
Por este tardio relato!

Não te entristeçam as lágrimas
Que nublam o teu retrato!

Ah! Se o tempo voltasse!
...Eu te traria de volta
Ao meu colo,
Se pudesse!

Se o tempo voltasse...
...Eu te traria de volta
Ao meu ventre,
Se pudesse!

Mas nós o temos somente
Em nossas almas dolentes
Quando a tarde entristece.

Cidade: AlegreteAutor: MaximilianoAlves de MoraisIntérpretes: Neiton Perufo e Romila Hoffman do AmaralAmadrinhador: Violão – Paulinho Oliveira

FEITO A ÁGUA

Eu só queria um pouco do teu gosto
para adoçar minha existência amarga
e temperar essa excessiva carga
do sal que deixa os olhos, pelo rosto!

Sei que esse pouco enxugaria o mar
que encharca as várzeas desse olhar posteiro
e emprestaria o mágico tempero
que traz de volta o velho paladar!

Eu só queria um pouco de tuas cores
pra repintar o cinza das lembranças
e colorir trigueiras esperanças
pra, entre espinhos, ver brotarem flores!

Sei que esse pouco acenderia os astros,
acalmaria os ventos na janela
e, derramando chuvas de aquarelas,
devolveria o verde a esses pastos!

Eu só queria um pouco do teu cheiro
pra perfumar as estações da vida,
e essa paisagem cálida e perdida
de rancho, açude, cercas e potreiros!

Sei que esse pouco afastaria a ausência
do teu perfume por essas distâncias...
Olor agreste, súbitas fragrâncias
de campo e mato a transpirar essências!

Por que não provo mais aquele gosto
que há no teu beijo e que me acende o lume?
Por que não sinto mais o teu perfume
nem as tuas cores levam esse agosto?

Por que essa sombra a nos rondar o posto?
Talvez de tantas privações e mágoas
foste ficando fria, feito a água,
e, agora insípida, não tem mais gosto!

Será que o tempo nos levou o amor?
E, à deriva, onde a paixão deságua,
és transparente e passas, feito a água,
levando a vida assim, tão incolor!

Será que a gente, sem saber, devora
o que sentia e que depois se apaga?
Por isso estás vivendo feito a água,
distante, alheia, cíclica, inodora...

Nem mesmo o pranto do meu par de esporas
abre em teus olhos uma queda d’água...
Foste ficando livre feito a água
que, de repente, some ou se evapora!

Talvez, num posto velho nas lonjuras,
nem mesmo a química, afinal, suspeite
que eu, ano a ano, me tornei o azeite
que, com a água, já não se mistura!

Foste ficando feito a água, é certo...
Porém, as culpas eu também carrego!
Colaborei até bem mais, não nego,
pra essa distância vir morar tão perto...

Mas hoje estou te oferecendo um mate
olhando dentro dos teus olhos mansos,
onde eu fiquei, perdido num remanso,
por muitos anos, fora de combate!

Talvez não seja tarde, companheira,
pra remexermos os tições do fogo
e reverter os rumos desse jogo
que nos consome quase a vida inteira!

Sentindo a falta desse amor, compreendo,
que, muito dele, ainda em mim, perdura!
Se és feito a água, é dessa água pura
que eu necessito pra seguir vivendo!

Cidade: São Borja
Autor: Rodrigo Bauer
Interprete: Pedro Júnior da Fontoura
Amadrinhador: Violão - Diogo Matos

EM QUAL PORTO?

Se um dia eu fui semente,
Semeada sem querer
Se não pude escolher
Entre nascer ou morrer,
Eu habitei o teu ventre.

Ali eu fui aninhado,
Por horas, quem sabe dias,
E mudei tua geografia.
Eu em teu ventre crescia,
Pra ser um dia aportado.

Mas o que eu não sabia
Em qual porto, nem a hora?
Pois tua alma senhora,
Já havia ido embora
Enquanto me concebia.

No teu puro egocentrismo
Nas loucuras do prazer
Querendo viver, viver
Não conseguiu perceber
Que regavas o egoísmo.

Alimentava sem querer,
O fruto de teus desejos,
Eu era o teu segredo
Teu presente, teu brinquedo
Nas entranhas de teu ser.

Um dia me descobriste
Eu no ventre estremecia,
Eu te amava noite e dia
Seria tua alegria,
Mas senti que estava triste.

Chorei teu pranto, tua dor
Sentindo teu coração,
Que cego e sem compaixão
Sangrava sem ter razão,
Não queria meu amor.

Resolveste me parir
Expulsar-me de teu ventre,
Matar e punir semente,
Num ato tão displicente
Eu deixava de existir.

Hoje eu vim te contar
Que senti naquela hora,
Tu me mandavas embora,
Eu já amava a senhora
Eu não queria aportar.

Fui golpeado em teu ventre
Te confesso agonizei,
Por teu perdão implorei,
Em minha alma guardei,
A dor que hoje tu sente.

Fui apartado de ti,
Abortado sem querer,
Sem direito de nascer
Fui condenado a morrer,
Por isso que estou aqui.

Sou parte de teu passado,
Deveria ser presente.
Mesmo eu sendo inocente
Por não ter alma de gente,
Por você fui condenado.

Em qual porto? Qual a hora?
Eu não pude decidir,
Entre aportar e existir
Entre ficar e partir,
Por ti fui mandado embora.


Cidade: Farroupilha
Autora: Rosangela Rosa
Intérprete: Priscilla Alves Colchete
Amadrinhadores: Violino - Grace da Silva Narde
Violões - Daian Luis Costa e Dian Paulo da Costa

CARTA AO AMIGO RIO GRANDE

Meu velho amigo Rio Grande,
Na voz dos bichos, da chuva, a noite pranta lamentos,
Pois é tempo d’invernia destoutro lado da terra. . .
Também eu, choro o momento ao te contar tal enredo,
Pois o meu peito anda ermo, quase imitando tapera. ..

Achei estar preparado prá o flete alcunhado mundo. . .
Ledo engano, nem te conto, que o matungo desengano
Me derrubou já faz tempo. . .

Cevei quimeras truncadas, no bojo do coração,
Achando q’este universo, chamado primeiro mundo,
Fosse melhor do que o nosso. . .
Patacoada mais grongueira, um balaio de inverdades
Quando mentem pro vivente, que a tal da felicidade,
Só podem ser encontrada, num jardim ornamentado,
Que batizaram cidade. . .

Meu velho amigo Rio Grande.
Cambiei dos “zóio” a mobília, viuvei das vistas do campo. .
Agora, não tenho aurora como estava acostumado:
Já não ouço sinfonia do gado mugindo em coro,
Do quero-quero alarido, latido da cachorrada
Tropilhas de puro sangue, num faz de conta, manadas,
De sabugos escolhidos, que aos berros iam ponteadas. . .

Não tem prosa de galpão nestas tardes de aguaceiro,
Nem cuia de mão em mão no mate escorropichado,
Rapadura, bolo frito, pinhão num grito estalando,
Quando apinchado na alcova d’um braseiro estorricando. . .

Meu Velho amigo Rio Grande. . .
Carteio um jeito sem custo, que não vá ferir meu peito,
Pois o mesmo quietarrão, hoje é virado em porfias. . .
Parece trazer a sina destes campeiros teatinos,
Com tantas encruzilhadas que não lhes resta opção. . .

D’um sonhador alquimista, neste palco de concreto,
Virei andante nas ruas, sentindo a pua saudade,
Atristar olhos risonhos, que amorfaram por completo. . .

Hoje me pranto aos molhos, prá não dizer aos pedaços. . .
Desmanchado,cato aos nacos,meu coração quase um caco,
Desta saudade dos meus. . .

As noites que cruzo em claro tem nos anais da memória,
Por-de-sois com marcações, rodeios com gineteadas...
Da imagem da minha amada, uma beira, quase um nada
Um leve contorno à lápis, pela poeira engolfada. . .

Neste cafundó estrangeiro, ando campeando um saleiro
Onde repor minerais. . .
Uma Cacimba que aplaque, esta m’a sede de busca,
Tantos ais, e tanta angústia, que não me cabem no peito. . .
Talvez, as velhas quimeras q’inda restam pelo mesmo,
Um dia vinguem nos campos que eu vivia, mas não vi. . .

Prá amansar ânsias renhidas, ando mastigando uns versos,
Temperados com lembranças do chão onde fui parido,
Assim, ludibrio a fome, que traz por nome saudade. . .

Meu velho amigo Rio Grande,
Ando carteando uma sina,que botou flor no meu truco,
Se o carteio é pesado? Ala fresca! nem te falo,
Mas hei de rezar meu terço, nem que eu rasgue dez baralhos. .

Buenas, vou terminando, por que a soga saudade,
Q’um dia foi espichada, faz noites, vem sufocando,
E aos poucos aperta o cerco, reduzindo sua armada. . .
Deixa estar patrício amigo, que nem tudo são angustias,
Depois de tirada a cisma, enfreno minhas domandas
De tantos ais e porquês. . .

Viro a cambona na brasa, e a taramela da casa
Por fim vai cumprir função. . .
Antes que seja tarde, e tarde a hora de voltar,
Telureio campos largos, buscando teu aconchego,
Me achego num fim de tarde, prá me embriagar de amargos,
Cevados com risos, rimas, prosa, canto e amizade. . .

Deste devaneio incerto, que um dia gerou tormentas
Nas baias do coração. . .
Será bem mais do que um rito, contada aos filhos e netos
Nestas tardes chuvarentas. . .
Será tão só nostalgia d’um manuscrito traçado,
Pois o meu foi falquejado, no dia em que fui parido. . .


Cidade: São José do Ouro
Autor: João Antonio Hoffman Marin
Intérprete: Ariel Pereira
Amadrinhador: Violão - Luis Alberto dos Santos Gonzales

BALAIOS VAZIOS

Quem passa naquela estrada, pras bandas de Camaquã,
Vê uma tribo abandonada, esquecida por Tupã...

Raízes da pampa
Desnudas, sem solo,
Da terra que um dia foi dada por Deus;

Às margens do asfalto, as almas mendigas
Esperam que o mundo devolva o que é seu.
É o resto de um povo heróico, valente,
Nascido na selva, com dom de vertente,
Que busca caminhos no ventre do chão;
Ganância de poucos os fez tão errantes,
Maldade de muitos os deixa distantes
Da mãe natureza, que é vida e que é pão.

As casas de lona desmentem a cultura
E agrava a tortura... Destino infeliz.
a fome que avilta, o frio que ameaça,
Mermando a esperança aumenta a desgraça,
Mas verga e não quebra o cerne da raça
De um povo guerreiro, heróis guaranis!!!

No Rio Grande afora,
À beira de estradas,
Perfilam-se as casas de lona quinchadas,
Guardando a história dos meus ancestrais;

Guaranis, caigangues,
Que a terra sem males sonharam um dia,
Sepé deu a vida, lunar de utopia!
Que há de trazer a luz da alegria,
Num tempo perene, de amor e de paz.

Os ventos tão tristes, cantados em vida
Na canção sentida de Cenair Maicá,
Ainda persistem nas noites compridas
Que mexem as feridas das gentes de cá.


Enquanto se inscreve no Livro da Pátria
Os feitos heróicos do velho Sepé,
Seu povo excluído, persiste alijado,
Não ouve-se a voz lançada num brado,
E um grito entoado, num gesto de fé.

Cadê a justiça, que esquece dos fracos,
E entona gravatas em vis gabinetes???
Que engorda salários e conta bravatas,
Galgando poder, somando cascatas,
Que privilegiam e criam chefetes...

Cadê o Ministério,
Que pousa de justo e conta que é sério,
E mata de susto,
Brincando de um jogo de quarto poder?

Cadê o compromisso com a origem da gente?
Transformam o índio num ser indigente,
Que hoje não tem a quem recorrer.

Cadê a FUNAI, e outras iguais,
Que vivem da sorte do índio espoliado?

Omite-se a mídia, omite-se a Igreja,
Somente a incerteza viceja ao borralho...

Devolvam ao índio o seu patrimônio,
Que é a mata e os bichos,
Os peixes e os rios...

De lá das alturas escuto os bordões
De um canto dos livres...
É a voz das Missões, que cruza as coivaras,
Timbrando suas notas nas secas taquaras,
E "cantam ventos tristes nos seus balaios vazios...
Cantam ventos tristes nos seus balaios vazios.”


Cidade: Caxias do Sul
Autor: Sebastião Teixeira Corrêa
Intérprete: Ayrton Jorge Machado de Souza
Amadrinhador: Violão - Julio Schimidt Haubert

VELHO AMIGO

Final de dia... Vento teimoso...
recorro a coxilha entre potreiro e corredor
para encontrar meu velho amigo...
e o meu eu interior.

Assim quando fujo de mim
tenho tua companhia neste prosear...
e fico a cismar olhando no infinito
o que estás a pensar.
Será que estás a rememorar
o canto sonoro da calhandra
que todo dia habita teus braços
a imitar quem passa no teu costado...
Ou a relembrar os berros dos touros
nas tardes de outubro,
abrindo riscos e covas na pampa
demarcando imensidão de terra
a chispaços de casco e guampa?

Talvez relembre os frios invernos de agosto,
quando o vento assoviando em tuas “grimpas”
ia compondo melodias distintas;
E, sem importar-se com a geada
que vinha a queimar o pasto
era - Fonte de vida e abrigo –
seguindo assim rijo e inerte, velho amigo.

Será que estás recordando as tropeadas?
As coplas singelas do velho tropeiro
repontando o gado sinuelo,
ou os aboios daquele que na culatra
da tropa cruzando campo em flexilha
passa sem importar-se com a tua presença
no alto desta coxilha?
Deve estar a lembrar do piazito,
que vem buscar o fruto que tens a ofertar...
Ou as ovelhas que batem as “grimpas”
e, ao seu pé buscam a semente!

Que pensas tu sobre os cavalos?
Os fiéis parceiros do campeiro,
que nos escaldantes verões
buscam teus braços para repousar?

Meu parceiro,
que alegria abrigar-me das chuvas contigo,
e poder compartilhar versos e guitarreadas
nas mornas tardes outoneiras
ou nas tardes longas de primavera.
Sim, velho parceiro de mate
o quanto me aqueceu
nos gelados invernos pampeanos!

........................................................................................

Gracias velho amigo!!
Hoje, quando me encontro na cidade
longe do meu amigo interior...
essas lembranças vão escarceando ao léu!
Querência, perdão por essa saudade sem fim!
Pois quando volto à coxilha renasço no corredor
e vejo de alma lavada meu velho amigo assim...
de braços abertos esperando por mim!

3º Festival Querência da Poesia Gaúcha

O 3º Festival Querência da Poesia Gaúcha ocorreu no último domingo, dia 09 de maio de 2010, nos Pavilhões da Festa da Uva, junto ao 22º Rodeio Crioulo Nacional de Caxias do Sul. De um total de 124 poemas inscritos, foram selecionados 10 para ir a palco pela comissão avaliadora composta por Carlos Omar Villela Gomes, Luís Lopes de Souza e Wilson Araújo. Ocorreu a gravação ao vivo do CD/DVD do festival, a qual estará à disposição em meados da Semana Farroupilha, conforme informou a organização.
A Organização esteve por conta da Associação de Poetas e Escritores “A Querência da Poesia Xucra”, com apoio da 25ª Região Tradicionalista e da Prefeitura Municipal de Caxias do Sul.

Classificação:

Poesia
1º Lugar: Lições de Campo e Estrada-
Autores: Cláudio Silveira, Cristiano Ferreira -
Intérprete: Francisco Azambuja- Amadrinhador: Violão - Cláudio Silveira

2º Lugar: Feito a Água-
Autor: Rodrigo Bauer-
Interprete: Pedro Júnior da Fontoura-
Amadrinhadores: Teclado - Diogo Matos / Violão – Pedro Lemos

3º Lugar: Pajada Para Indiara-
Autor: Vaine Darde-
Declamador: Romeu Weber-
Amadrinhador: Violão - Lenin Nuñes

Declamadores
1º Lugar: Neiton Perufo e Romila H. do Amaral-
Poema: Lapidário- Autor: Maximiliano Alves de Morais-
Amadrinhador: Violão - Paulinho Oliveira

2º Lugar: Paula Daniele Stringui-
Poema: Na liberdade do verso-
Autor: Érico Rodrigo Padilha-
Amadrinhador: Violão - Alcione Cleber Padilha

3º Lugar: Ariel Pereira-
Poema: Carta ao amigo Rio Grande-
Autor: João Antonio Hoffman Marin-
Amadrinhador: Violão - Luis A.dos Santos Gonzales

Amadrinhadores
1º Lugar: Cláudio Silveira (violão)-
Poema: Lições de Campo e Estrada-
Autores: Cláudio Silveira / Cristiano Ferreira

2º Lugar: Diogo Matos (teclado) e Pedro Lemos (violão)-
Poema: Feito a água-
Autor: Rodrigo Bauer

3º Lugar: Marcos Morais (violão)-
Poema: Sentinela ao Sul do Mundo-
Autor: Moisés Silveira de Menezes

3º Querência